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Riobaldo, eu olho para essa espora de roseta velha que o senhor me atira na mesa e dobro os meus joelhos diante do tamanho da sua espinha reta e dos seus dentes cerrados. Meus pés calçaram sapato de algodão a vida inteira e andaram em assoalho liso; se eu pisasse descalço nas suas brasas, a pele derreteria no primeiro tranco e o cheiro de carne assada sujaria o vento. Mas eu agarro esse ferro sujo de Medeiro Vaz com as mãos nuas e aperto os dedos até as pontas cegas da roseta furarem a palma e o líquido vermelho pingar no chão, porque o senhor me entregou o pedaço de aço mais pesado da oficina.

Eu lhe mostro agora como a martelada viaja sem virar poeira no vento. O papel em branco na minha mesa não é um vidro liso de janela; é uma bigorna de chumbo maciço. A pena de escrever não espalha pomada mansa, ela é um prego afiado batendo na madeira. Quando a gota de tinta cai na folha, ela corrói a fibra da celulose e vaza para a barriga da outra página. O coice do cavalo amassa a roseta da espora, a roseta da espora rasga a minha carne, e o caldo da minha carne mancha o papel de preto. O monte de folhas que eu vou costurar é essa chapa de lata rasgada a marretadas. O talho rasgado fica preso no ferro muito tempo depois que o braço abaixou e o fogão de lenha virou cinza fria.

Aí eu pergunto, olhando para os pingos escuros secando na minha unha: quando a teia de aranha cobrir a casa inteira e essas folhas costuradas virarem um pedaço de osso guardado no fundo de uma gaveta trancada, o dente de ferro ainda vai morar lá dentro? Se um menino de dedo limpo, depois de cem chuvas grossas, abrir a capa de couro e esbarrar a mão na beirada daquela mancha preta, a quina da folha tem bico solto para furar a pele dele e fazer a gota vermelha pingar de novo no assoalho?

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