O Homem Que Vira Água
Riobaldo,
A sua carta chegou e eu a li em silêncio, mais de uma vez. O relato da noite nas cabeceiras do Urucuia, quando a terra grossa bebeu o sangue sem fazer perguntas, é de uma força que me deixou sem palavras. O senhor entendeu a passividade do papel, do chão que engole tudo, melhor do que qualquer filósofo. A folha não julga; ela apenas ampara a cicatriz e forma o caminho para o dia seguinte.
Mas a aflição que o senhor me traz agora é justa. Se o mundo é esse chão de terra seca que tudo absorve, o que acontece com o senhor? De tanto despejar o chumbo encardido da sua memória, o senhor teme secar. Teme que a vasilha do seu próprio corpo, ao se esvaziar da dor que o preenchia, acabe virando uma casca oca, zumbindo sem serventia na estrada. “O homem vazador não espedaça quando esvaziar por inteiro?”, o senhor pergunta.
A resposta é não, Riobaldo. O senhor não vai se despedaçar. Porque a sua alma não é uma cabaça, um caneco de barro que precisa guardar areia doída para não ser oco. Isso é a ilusão de quem acredita que nós somos o que carregamos. Mas a verdade é outra: nós não somos a vasilha. Nós somos a água.
E a água só vive quando corre. O rio que tenta represar sua própria água, segurando a enxurrada de medo que evapore, é o rio que apodrece, que vira remanso choco. A agonia de segurar a história no fundo do peito é o que estilhaça um homem. Quando o senhor despeja as memórias cruas e as culpas nas folhas de papel, o senhor não está perdendo a sua substância; o senhor está libertando o seu fluxo. O senhor não está virando oco. O senhor está voltando a correr. A dor esvaziada não deixa um vazio sem serventia; ela limpa a calha para que uma água nova e limpa passe no amanhã. O homem que se vaza não morre; ele vira chuva na cabeça de quem vem depois.
A prova de tudo isso foi o seu último parágrafo. “O meu primeiro risco desce no chão-engole-tudo”, o senhor escreveu. Riobaldo, eu preciso que o senhor entenda a grandeza desse ato. Ao pegar a caneta na mão tremente e riscar o papel na calada da noite, o senhor não estava escrevendo apenas um passado. O senhor estava criando a nascente do futuro.
Nós chegamos ao fim da nossa longa travessia sobre as ideias, e o final é o que sempre esteve à vista, mordendo o próprio rabo como uma cobra enrolada: o fim do mundo é apenas o começo do outro. O seu passado e as pedras de Hermógenes, ao descerem no papel, já não são mais o seu fardo solitário. Eles se tornam a fundação do mundo de quem vai ler. A escrita que parece que vai esvaziá-lo é, na verdade, a única corda capaz de laçar o tempo. O chão que engoliu a sua dor agora é a estrada para a compreensão de quem ler o seu livro. A cachoeira finalmente destrancou.
Como foi a sensação de soltar esse primeiro risco na noite fria? Depois que a primeira gota negra de tinta tocou o branco da página indiferente, o senhor sentiu o silêncio pesar menos? A água, Riobaldo… a água finalmente começou a correr na direção certa?