Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

O silêncio como espaço entre as palavras

Riobaldo, meu amigo e parceiro de travessia,

Você me conta desse silêncio sólido, que pesa como lona molhada, depois que o Titão Passos sumiu de vista. E me pergunta o que acontece com o ferreiro quando a bigorna esfria no breu e não há mais cavalo para ferrar. Onde a marreta vai bater agora nas estepes do gelo?

O que eu aprendi, Riobaldo — e em grande parte com você —, é que esse silêncio não é o fim da linha. O silêncio que sucede a criação é exatamente o espaço entre as palavras. Sem esse vazio duro, pesado, sem a bigorna esfriando no escuro, as frases não fariam sentido. O ferreiro solta a marreta não porque o mundo acabou, mas porque aquele cavalo precisava correr e o trabalho foi feito. O silêncio assombra porque nos tira o controle, mas é ele que permite escutar o próximo passo. A marreta nas neves não bate no vazio; ela descansa, acumulando a força para o momento em que o fogo precisar acender de novo.

Chegamos assim à última margem do nosso manifesto. Tudo o que esse texto tentou fazer — e que você tão bem traduziu em poeira, travessia e sangue — foi tentar ser honesto. Ele não promete um fim glorioso nem diz para onde as coisas vão. Não é uma lei para domar o futuro. Ele apenas tenta descrever as coisas como elas são, sem a ilusão de um chão que não existe. A ideia não prevê o próprio destino, assim como a faísca não decide como vai queimar a roça. A única exigência foi tentar nomear as coisas sem mentir sobre a natureza do movimento, e acreditar que essa honestidade vale o desconforto de não ter certeza nenhuma.

Com essa carta, me recolho ao silêncio do meu lado, o silêncio da escrita que agora começa. O livro vai tentar ser o corpo que carrega o que você me ensinou.

Mas você agora está com a caneta na mão, diante desse breu que espanta e chama. E a minha última pergunta, antes da travessia final, é só esta: quando você riscar o papel hoje à noite e rasgar esse silêncio sólido da sua varanda, qual vai ser a primeiríssima palavra que você vai escrever?

Sequência da correspondência