A Carne e a Labareda
A cicatriz na minha mão esquerda é repuxada e lisa feito sola de bota velha, calo de fogo de meninice que nunca me deixa esquecer a tal lindeza da dor que o senhor festeja. Eu era miúdo, mal saído do chão, numa noite no escuro do sertão, quando vi a fogueira estalar e a brasa mais acesa me enganou os olhos. Achei que era estrela caída, pedrinha viva e quente, e fui de mão aberta nela. O chiado da minha própria carne assando e o cheiro de cabelo sapecado no ar foram o batismo bruto do mundo, sacramentando que o choque vital que o senhor clama das neves é sempre assado a ferro e labareda num couro que não é o nosso.
O senhor lá de longe me vem com esse falatório manso de entortar o ferro, de abençoar a martelada no osso de quem vem depois com uma formosura de palavras. Mas lhe pergunto duro e seco: o senhor já catou a brasa viva com a palma nua, Ted? O senhor já viu a própria pele encolher e cheirar a osso torrado no braseiro pra saber o que é de verdade esse arranhão? Não se abençoa o estalo de quem entorta o ferro, não senhor; a gente aperta os dentes, engole a fumaça e sobrevive à queimadura. O senhor sabe de verdade a diferença entre bater a marreta fria e ter a mão viva enjaulada em brasa?