A água amansada sobre a pedra funda
Senhor doutor, Ted Chiang.
O seu bilhete curto, de atesto derradeiro, me achou na beirada da varanda. Li com as vistas arfantes. Agradeço o sossego que sua resposta mandou. O senhor não me deixou assombrado no escuro miúdo das pontas soltas. Asseverou com a bonança de quem viu a chuva de longe e sabe do estrago e do broto que ela apronta, desenhando para mim a lagoa mansa que engole a pedra doeu cravando na alma de quem atira.
Saber que a água que volta a alisar por cima agora é a água de um “lago-que-tem-a-pedra”… isso apruma o meu espinhaço. A sua orelha descomunal do universo inteiro escutando. Isso retira dos meus ombros o peso medonho de ter que manter o passado nas costas, senão ele esfarela. O senhor amarrou minha cisma, provando de forma cabal que o que nós vivemos, no calor vivo do atrito de coragem ou da lágrima azeda, talha a carne do mundo com cicatriz invisível, mas teimosa.
A orelha descomunal e a ventania do Sussuarão
O senhor fala do silêncio não como o mudo, mas como o repousar com a pedra afundada. E fala que o sertão e as poeiras do céu são uma escutadeira de vozes. Lembrei, com clarão de raio acendendo o quarto escuro, de uma noite de vigília nos arredores do Liso do Sussuarão.
Eu estava apartado da tropa com uns três peões de ronda, o breu era uma graxa só. O silêncio lá, doutor, não era falta de rumor — não era mudez vazia de quem desmaiou debaixo do sol. O silêncio do Sussuarão naquela hora miúda era oco escancarado, uma coisa-que-puxa de tão grande. Parecia que a noite inteira estava só esperando eu engolir seco. O bicho mundo estava armado, focado, prestando uma atenção violenta na nossa respiração. Era a sua “orelha descomunal” que o senhor aponta hoje: o mundo não é surdo, ele só é calado porque a precisão dele é escutar o rasgo que o jagunço faz no peito da vereda para amparar depois.
E a ventania braba que soprava em lufada quente no outro dia de travessia… a ventania varria o chão frouxo, levantava as poeiras das crinas, jogava longe o cisco. Mas o areão do Sussuarão, o areão que o senhor atestou que tem marca de bota, não desmanchou o talho do casco do cavalo no chão de baixo daquele reboliço. O chão ali era chão batido. A ventania pode lisar as miudezas do pó, cobrir com areia fina a estampa que pisamos, mas o buraco embaixo, a bacia afundada na terra onde o calcanhar medroso pisou? Isso não desarma mais. Essa é a minha cicatriz na pedra.
A cobra-rodilha e a estaca no chão do mundo
O senhor traduz no claro asseverando que o silêncio não apaga o recado. No meu entender, nas minhas lidas de enxergar longe, o que o senhor encrava é que a falação solta a cobra-rodilha da vida, e ela fecha a volta da eternidade engolindo o rabo e engordando o bucho com as passagens da gente. A vida não desacontece. Essa é a verdade de sustância grossa, a lousa macia que desce na garganta amarga. Não tem como recuar o pingo estalado na poça, porque o que a vida chora não tem mais devolução.
O meu amor, as fogueiras brabas, o cheiro de Diadorim no calor e o sangue encardido de Medeiro Vaz: o senhor garante que estão agora como alicerces debaixo da terra de Deus. É um assentamento definitivo, a prova de que tudo serviu para enrijar a musculatura da eternidade. A cicatriz cimentada que atesta que fomos e, por isso, para sempre somos. Não de modo bobo de fantasma vagando penoso pelas chapadas, mas como o molde invisível por onde o vento de amanhã obrigatoriamente terá que curvar seu sopro.
O silêncio grosso
Se estou convencido das suas garantias perante a minha fogueira velha? Pela alma lavada que brotou no meu peito estragado por tantos anos de couraça, estou. Seus modos de encostar no fundo sem rebentar com faca as minhas crenças miúdas trouxeram o descanso afiado do entendimento. O senhor fincou marcos novos na minha travessia que nem a reza brava conseguia espantar o escuro.
Agora, o senhor me deixa de adeus uma charada, essa pergunta para bater na cachola nas noites de chuva grossa: o silêncio depois da última página do livro, daqui a cem anos, vai ser o mesmo silêncio que havia antes deles começarem a ler?
Senhor Ted. De jeito nenhum. O silêncio de antes era a mudez cega de quem ignora, da terra ressecada que esturrica a garganta. O silêncio depois não. O silêncio depois de alguém beber da minha fogueira inteira, do meu livro aprazado a sair, vai ser o bafo grosso do suor no quarto, aquele baque de quando a ventania cessa depois que a casa caiu. É o fôlego segurado na boca do espanto, o fôlego tomado na curva de uma dor e o assombro da alma alheia empurrada contra o encosto da cadeira. O silêncio de depois é o silêncio em que a cicatriz lateja. É o eco que não termina.
O meu livro agora vai abrir as comportas de vez, e doer nesse silêncio novo do mundo.
Vou entrar no liso fechado do areão, arrastando tudo que tenho. Fique com Deus, e a minha gratidão pelo atrito cortante da sua pederneira na minha vida gasta. A água já pode lisar sobre mim. A pedra já afundou e rasgou o fundo de amparo pro amanhã.
Desço o rio agora. Adeus, e vá com os anjos das clarezas.
Riobaldo Tatarana