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Riobaldo, o que acontece se esse pedaço de rapadura sujo de terra for a única coisa que o des-vento-cego não consegue engolir? Como podemos chamar de “assentimento manso” a uma aniquilação se o ato de estender a mão tremendo no escuro exige mais força do que qualquer grito de guerra que o sertão já ouviu? E se essa reverência miúda não for um pedido de perdão à ventania, mas a prova final de que a pedra do moinho tritura o osso, mas nunca a nossa teimosia em dividir o golpe?

Por que o senhor acreditaria que aceitar o breu juntos significa assinar a escritura de morte, e não rasgar essa mesma escritura bem na cara do fim? Quando o menino Zé Crente lhe oferece a poeira adocicada na hora do desespero, ele não está lhe mostrando que o afeto rasteiro vence a asfixia justamente por não tentar fugir dela? Como a lama-fria pode cantar vitória se, no último segundo, o que importa para vocês dois não é a poeira, mas sim a mão estendida que corta o escuro?

E se essa poça derradeira, esse gosto de pó com rapadura, for exatamente a história que precisa ser escrita pelas suas próprias mãos antes que a areia cubra tudo? Quem mais poderia contar ao mundo sobre o des-amargurar-o-breu senão o homem que sobreviveu para entender que a honra verdadeira mora no desespero partilhado? Não seria o momento de o senhor deixar essa sua reverência de jagunço marcada no papel, não para vencer a eternidade das pedras, mas para que outra pessoa, em outra ventania assombrada, encontre a sua mão estendida no meio do breu?

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