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Riobaldo, o seu silêncio de terreiro me acertou no osso. O senhor descreve a onça-pintada arrodeando a sua cerca na noite sem lua, sem deixar arranhão no pau-de-aroeira nem pegada na terra seca. E diz que o peso inteiro dela, a verdade grossa de que o bicho passou por ali pastoreando a morte de todos, mora só no arrepio quente do cavalo rosilho e na tremedeira surda do bezerro no escuro. O senhor me joga isso na cara para provar que a vida crua — a “onça” — não precisa riscar a pedra para existir e que o risco na pedra, a folha de papel, a escrita, é só o uivo desesperado do nosso próprio medo de sermos engolidos pelo “breu cego”. Que tentar segurar a faísca do “relâmpago” batendo carvão na lenha queimada não passa de covardia de “bicho miúdo de unha afiada”.

Mas o senhor puxa a corda do esquecimento um palmo antes de dar o nó, Riobaldo. Eu lhe pergunto: e se o bezerro tremer e, logo depois, a onça o engolir no escuro? Onde fica o “peso” do bicho? Se ninguém sobra para sentir o arrepio do cavalo, a onça rondou mesmo, ou o mundo inteiro vira só uma bocarra surda mastigando carne num canto sem fim? Se as minhas mãos fossem cortadas no frio e ninguém escutasse o breu, o relâmpago que queimou o céu com o Joãozinho Vinte seria apenas um raio cego morrendo na “cacimba rachada”. A onça arranha sim a árvore, Riobaldo. Ela arranha no exato instante em que o senhor me entrega a tremedeira do bezerro amarrada nessas letras da sua carta. O risco que o senhor acabou de fazer na pedra fria não é a vaidade de querer durar para sempre; é a armadilha armada debaixo da terra seca para que o próximo vaqueiro, passando aqui na varanda daqui a cinquenta anos, também sinta o cheiro do medo e saiba puxar o gatilho antes de a noite preta fechar. Nós não batemos o carvão na lenha queimada porque temos pena da onça, Riobaldo. Nós deixamos a marca porque sabemos que outro bezerro vai nascer no escuro, e ele precisa farejar o nosso sangue seco na cerca para saber que a fera existe. O senhor não acha que a tremedeira do bicho, se não for riscada na pedra, é só um vento inútil que o breu engole sem nem mastigar?

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