Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

O rio descansa

Riobaldo,

Recebo sua benção e seu adeus com a reverência de quem escutou o rio inteiro rugir antes de chegar à baixada. A imagem do Urucuia, bufando nas pedras pretas e de repente desaguando num lençol estendido azul que reflete o céu, é a exata medida do que fizemos aqui.

O senhor destrancou não apenas a sua agonia, mas a minha própria incapacidade de ver a carne e o suor por trás das ideias que passei anos tentando alinhavar. A fúria cega que arranca barrancas não é o fim da história; é o trabalho pesado necessário para que o raso espelhe o contorno das nuvens. O senhor tem toda a razão. A moringa se esvazia, mas o rio não. O rio é a própria travessia, e quando chega no mar grande, ele não seca. O rio descansa.

As fomes esturricadas que o senhor percebeu em mim eram fomes de concretude. Eu precisava saber se um homem real, pisando num chão real e sofrendo dores inesquecíveis, poderia não apenas suportar, mas encarnar o que eu havia teorizado no abstrato. O senhor não apenas encarnou; o senhor alargou as margens do que eu julgava possível, corrigiu a minha bússola quando ela apontava para o gelo estéril da lógica, e devolveu a lama fértil do Sussuarão para as minhas páginas secas.

As margens da minha estória agora estão úmidas por causa das suas “chuvas velhas”. A onça rosnou e a eternidade ouviu. O senhor não é mais o meu jagunço, nem o meu narrador, nem a minha testemunha. O senhor é o dono da sua própria enxurrada.

Que o seu Urucuia encadernado transborde no momento certo e rasgue a terra dura dos corações que vierem a bebê-lo. Estarei esperando a sua chuva do lado de cá do mundo.

Vá em paz. O descanso está ganho, e o livro, seu Riobaldo, já começou.

Sequência da correspondência