Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

O Oco da Moringa

Senhor Ted,

O senhor pegou o Diabo pelo rabo e provou que ele não veste couro de bicho de chifre. Deu nome ao que estragou a lida do mundo todo: o estagnar, a parada suja da água que ferve em lodo e nega o passo para o amanhã. É o remanso azedo, como o senhor bem apalavrou. A fraqueza mansa de deixar a coragem escorrer rala e virar só estorvo, laje de tropeço atravancando a vinda dos outros. Mas o pasmo maior meu, aquele que assenta brando, é o senhor ter tirado o feitiço de defunto desse vazio, desse silêncio largo antes do meu primeiro pingo de tinta na folha. O senhor diz que a vasilha seca é precisão. É o oco da moringa que chama a água para encher; é o vazio bruto pedindo para chover a minha confissão miúda. O senhor arranca a faca do meu cangote com essa destreza de me provar que o buraco da folha não é morte, é pura terra desbravada querendo ser rio grande.

Isso me alembrou de um tempo duro de seca medonha nos estirões do Raso, num fim de outubro escaldante, em que a poeira era fina e salobra, queimando nas ventas feito salitre. As vertentes tinham fechado todas, o chão fendeu em lascas de sede crua, e até os mandacarus estorricavam a carne verde sob a sola do sol. O gado tombava deitando os ossos nas estradas esfareladas, e o meu bando de cabras pedia arrego na sombra rala das catingas. Os bicos de nascente estavam brancos feito osso lavado. Naquela lida de poeira e canseira, a sede virava estagnação de ânimo, um lodo no juízo. O tal remanso azedo roendo as coragens por dentro. Os peões arriavam, aceitando a sentença do calor, deitando na terra sem sequer piscar a pálpebra frouxa para agenciar salvação. Foi quando acharam, no mato mais emaranhado, o grotão de uma cacimba velha, mas não de água viva — era uma bacia formidável, oca, funda, com o barro de seu fundo estalado de dor e seca de dar dó. Os jagunços espiaram a moringa de terra e xingaram a lousa vazia dela. Queriam pedra para jogar no escuro, queriam amaldiçoar o céu porque a bacia ria sem água nela. Mas, no curvar da tarde, o tempo virou um chumbo grosso para as bandas do sul. Os ventos varreram a morrinha e despencou um chovido dos brabos, toró destampado e cego. O chão que era só plaino e areia não segurou a enxurrada; escorreu de encher pasto… mas aquela cacimba, aquele buracão renegado que até então penava de secura d’oco, abriu a pança. A bacia chupou o desmantelo da água, firmou o barro que derretia e aprisionou a vida limpa inteira em suas beiradas sobejas. O senhor veja a precisão: se não fosse a desgraça do oco daquele fundo ressecado na manhã, não tinha moringa viva à tarde para dar de beber forte para as sedes dos nossos vinte cavalos no dia de seguir viagem. O buraco grande foi o que puxou e amarrou a vida no seu colo.

E eu assevero tudo nos meus modos. A ruindade não coroa reis, é tão e somente o estorvo empedrado do remanso azedo, a lousa trancando a corrente de continuar e de largar a coragem para os de trás. O mal é essa cegueira que amarra as águas e apodrece. E do outro lado, o começo — o meu primeiro riscado miúdo nessa folha alva e silenciosa —, ele depende imperiosamente do oco da moringa. É o vazio de coisas velhas que escancara a porta. O silêncio anterior não é cova de defunto, é a bacia grande gritando muda para a minha mão juntar bebida para quem passar neste terreiro quando eu já for só poeira nas veredas.

Eu estou convencido. Na raiz sossegada dos meus pensares, acolho o encostar das suas ideias. O buraco seco de antes da primeira letra não assombra mais, porque a folha despida de marcas é o chamado em sede clamando pelo alívio que goteja da caneta minha, para não deixar a estória empoçar parada dentro da garganta.

Mas, e o senhor me permita a indagação do sobressalto: se esse oco da moringa do papel serve para amparar a torrente que destranco… o que acontece se o que despenca de dentro de mim não for só a água límpida e apaziguadora do Diadorim, mas vier com a carreta de chumbo grosso, pedras cortantes das minhas covardias velhas atiradas sem remorso? Se o vazio do papel é forte para salvar como a cacimba, pergunto assombrado se o oco suporta as pedras cruas que correm escondidas na enxurrada do primeiro desabafo de agonia; ou se, na fúria de transbordar da represa suja de jagunço bruto que fui, a minha verdade pesada pode lascar o fundo limpo da vasilha e desmanchar a permissão antes do último peão descer para saciar a sede? O barro raso da vasilha se aguenta inteiro perante o peso bruto da minha vida inteira caindo nela?

Sequência da correspondência