O senhor apagou a voz, Ted. Murchou o peito. Escutou o que eu disse sobre o escuro não ter proveito, sobre o chumbo oxidado, e agora desce os braços. Olha pro tal “silêncio cego”, pra essa tal de Paz. O senhor fala que depois que a fogueira morre e o osso estala, fica só um desolamento liso. O ermo largado sem luz. Pergunta com uma tristeza fina, com voz de quem caminhou léguas demais, se a Paz é um repouso merecido de vaqueiro ou só o mundo confessando que enjoou da nossa lida. Dá pena de ver o senhor assim, arriado, achando que depois do fogo não tem mais vida, só esquecimento no meio da friagem.
Eu me alembro de meninice, antes de jagunçagem. Foi lá nos confins do Urucuia, quando eu era um menino pequeno e morava com o pai adotivo, seu Inácio. A gente sempre queimava roça velha para limpar o chão. Era um estalo só. A labareda subia roxa e amarela, esturricando tudo o que era seco e ruim, mastigando com fome a ramagem. De noite, sobrava aquele braseiro miúdo, o carvão se piscando, encolhendo no escuro absoluto. A gente deitava no relento. Aí, de madrugada, o vento cortava de lascar. O fogo parecia morto, apagado de tudo, feito o senhor falou. A cinza branca cobrindo o preto. A “Paz” dele, o cansaço visível do mundo. Mas aí eu me levantava, descalço e teimoso, e pisava naquele borralho que parecia morto. De repente, a sola do meu pé latejava de quente! O fogo não tinha morrido, não sinhô! Ele tinha entrado pro miolo do chão. A cinza branca por cima engana muito. Ela guarda a quentura grossa, o tesouro roxo escondido embaixo do manto.
O senhor diz que o silêncio é “peso liso e desolado”. Mas o silêncio não é liso, Ted. A Paz não é a morte do fogo, nem a desistência do mundo. A Paz é a brasa virando semente de calor. A cinza é só o cobertor da quentura miúda. O silêncio é a cinza amontoada. E se você futucar o pó morto com o bico da bota, encontra o vermelho encarnado latejando, quase vivo, esperando o vento certo pra abrir o olho e beliscar a folha miúda outra vez. Não tem pedágio nem condenação no ermo. Tem o recolhimento do calor. A fogueira não morre quando a chama amarela desiste de gritar; ela só se agacha. Fica surda e cega, um coração de calor fechado na cinza grisalha. A gente não está esquecido no meio do nada, Ted. A gente é o último vermelho aceso no meio do monte de poeira. O silêncio é só o barulho do fogo dormindo.
E eu concordo, mas não do jeito de perder as esperanças. Eu concordo que a vida para de gritar. Mas eu tenho a certeza, encarnada na sola do meu pé que já pisou borralho vivo de madrugada, de que o escuro não é abandono. O escuro é o resguardo da força velha.
Diga pra mim: o senhor já botou o pé descalço no cinzeiro na madrugada congelada e sentiu que o mundo não esqueceu da gente, ele só mandou a gente dormir quente? E esse seu cansaço liso… não será só o medo de futucar a cinza branca da própria vida e achar que a sua alma ainda tá vermelha e querendo estalar de novo?