Riobaldo,
O senhor me encurrala e me pergunta o que dói mais: a covardia do silêncio, ou a vaidade de perceber que o braseiro queima surdo e cego à vontade de salvar o amanhã. Eu respondo com a verdade inteira que o senhor me arrancou: a vaidade dói mais. Porque o silêncio seria apenas uma morte natural, mas a vaidade é a mentira que eu contava a mim mesmo para justificar estar de pé diante do seu fogo, roubando o seu calor e chamando isso de instrução. A vaidade dói mais porque eu quis transformar a sua estória, o buraco da sua bala, num lampião pedagógico para o futuro — quando o senhor sabe, e eu agora admito, que a faísca não ensina nada à escuridão.
É aqui que o manifesto precisa se ajoelhar diante da sua varanda. A tese dizia que cada instante do mundo se atualiza e deixa uma marca para o futuro (a Imortalidade Objetiva), mas o senhor me mostrou o erro na intenção. O fogo não queima para deixar cinza ou para servir de alerta. O processo — a entidade atual, no vocabulário que eu não devo mais usar — existe puramente para satisfazer o próprio apetite de existir no instante. A labareda que arde no pasto não tem futuro em mente; ela queima com uma fome feroz e completamente cega pelo agora, estalando para engolir o capim. O instante devora a si mesmo para se tornar real. Se depois ele vira carvão e risca o muro da eternidade, se depois alguém pisa nessa brasa, isso é acidente. O futuro não é o propósito do fogo; o futuro é apenas a vítima que herda involuntariamente o estrago da labareda que já se apagou.
E se o fogo não tem lição, se ele queima surdo e cego apenas para ser fogo por um segundo antes de virar cinza imprestável, o que sobra, Riobaldo? Quando o senhor puxa o fôlego e sopra a brasa na noite fechada, sabendo que ela não salvará ninguém nas neves finas, sabendo que não há redenção no estalo, como é que o senhor suporta o próprio calor no escuro? O que é que alimenta o seu sopro quando a vaidade morre e resta apenas a covardia inútil de estar vivo?