Raízes nuas e água suja
Riobaldo, quando a neve desce da montanha na primavera, o que aparece não é calçada lisa lavada para o pé limpo pisar; o que brota debaixo do lençol branco é uma lama preta grossa, cheia de raiz podre, bicho morto no inverno, e mato estragado que a geada esmagou. Eu já afundei as duas botas nesse barro, já limpei com as mãos o musgo preto de pedra escorregadia, e sei que a água que escorre da neve é suja, rasga o chão num barulho surdo e carrega folha podre e terra junto, sem respeitar caminho. O senhor me pergunta se eu já sujei o peito de terra quente, e eu respondo com a friagem molhada de cá: a minha neve derretida não deixa nada em paz, ela arranca a sujeira escondida para fora e deixa um cheiro forte de mofo e raiz cortada no ar, me forçando a pisar na lama funda, sentindo o peso do molhado sujar a pele até debaixo da unha.