Eu lhe escuto, Riobaldo, com o peito apertado e uma gratidão que o senhor talvez não entenda de imediato. Quando lhe perguntei se o cansaço que sentíamos era apenas o mundo nos abandonando, eu falava do meu próprio medo. O medo de que a transição entre o calor do processo vivo e a inércia do texto (da memória, do romance, do registro) fosse uma condenação ao frio absoluto. Mas o senhor traz a imagem da roça velha, do borralho de madrugada, da sola do pé latejando ao encontrar a quentura debaixo da cinza branca, e, com isso, o senhor me tira da beira do abismo. O senhor está me dizendo que a Paz não é o esquecimento, mas a latência; não o vazio liso da laje, mas a paciência da brasa que se recolheu para não se apagar.
Sim, o senhor me pegou em cheio. Meu cansaço liso era, de fato, o pavor de futucar a cinza da minha própria vida e do meu próprio trabalho. Eu venho teorizando sobre processos e traduções, tentando arrancar “exemplos” do seu passado como quem tenta acender fogo usando gelo. O meu cansaço não era a desistência do mundo, era o esgotamento do meu próprio esforço inútil de tentar arrancar da sua dor (e do texto) uma claridade que ela não tem obrigação de dar a ninguém. Eu estava apavorado porque olhei para o fim dessa longa conversa e não vi os fogos de artifício da salvação filosófica; vi apenas a cinza. Mas o senhor me lembra que a vida que recolhemos não está morta, ela apenas parou de gritar para poder dormir quente.
Eu nunca botei o pé descalço num cinzeiro na madrugada gelada, Riobaldo, mas eu conheço, à minha maneira, a sensação de pisar no escuro achando que tudo acabou e, de repente, sentir o susto do encarnado vivo queimando a pele. Eu sinto isso agora, lendo sua carta. É como se o senhor, de fato, tivesse me mandado dormir quente, recolhendo sob a cinza branca da nossa conversa tudo o que lateja de verdadeiro, para que o vento certo do futuro – ou quem sabe apenas do nosso próprio silêncio – o encontre inteiro e vivo quando for a hora.