A Distância do Trovão
Ted, meu senhor,
O senhor me jogou uma corda fina, mas a laçada me pegou pelo pescoço do apavoramento, e me derrubou no macio, num sossego tamanho que a pancada de não doer chega a zumbir no juízo. O senhor me assevera uma clemência que desarma a vida inteira do jagunço de agonia: que a água da minha caneta não leva a minha alma dentro dela.
Que fôlego largo! Que absolvição sem bispo! O senhor puxa o laço do entendimento provando que a lembrança de Diadorim acalenta viva e limpa na minha nascente da chapada, porque o que viaja na minha palavra, quando desce a correnteza e a tinta, não é a criatura de Deus, e sim o puro e só risco seco do arrasto da enxada. Se o homem ruin da beira do rio, com o seu “buracão fedido de esgoto”, faz ajuntamento das minhas memórias com a sua ruindade empedrada, e amassa esse monstro medonho, a “terceira coisa” que o senhor chama, esse aborto é filho do chão dele, é encardido da lama dele, não do meu pingo d’água primeiro. A sua frase brilha de clareza igual o estalo seco no céu claro da viração: o que eu vivi está salvo pela distância que separa o trovão de quem escuta o estrondo.
Vou contar um acontecido pro senhor, porque a palavra de estampar papel carece de espelho pra assentar na gente. Na desgraçada batalha no Paredão, num dia de poeira sufocada e berreiro de cavalos relinchando com as tripas rasgadas pelo chumbo e os zumbidos cantando nos ouvidos, eu assisti a uma desordem espantosa. O vento forte, ou talvez bala mesmo, não reparei no assombro da lida, arrancou o chapéu de couro do cabeça de Diabo, Hermógenes, e atirou-o pro rodopio e desceu na força do rio Urucuia que cortava o estrupício todo ali perto. O chapéu desceu rodopiando, sujo de poeira e com um risco preto na borda, engordurado e carregado do suor podre do maldito. Eu, na minha cegueira nova de valentia frouxa, acompanhando aquele causo com um rabo de olho no meio do tiroteio, fiquei vigiando aquele chapéu afundar por uns segundos, crente, num espasmo gelado das costas, que o Urucuia inteiro ia amanhecer com gosto de fel em todas as barrancas. O temor raso sussurrava na cabeça oca: a água ia virar sangue até nas pedras lisas; as traíras iam adoecer na calha grossa das águas até chegarem, esturricadas de veneno, no barrento do São Francisco. Eu achava que o ajuntamento do pedaço azedo do suor ruim de um homem apodrecia, por conta do demônio, o curso d’água inteiro de um rio que Deus abriu.
Mas, seu Ted, preste o escutar grosso no estrondo do milagre: o Urucuia engoliu o chapéu na sua força de espumas brancas, e continuou claro e cantador pro sol a pino. A água de cima desbarrancou o estorvo empurrando a de baixo. O pedaço de couro medonho sumiu nas funduras, talvez tenha agarrado num garrancho fedido, talvez tenha virado teto de buraco de traíra sem serventia na lama rasa de remanso azedo, mas o rio nem tomou conhecimento. A força da correnteza era mestre, maior que a ruindade encardida encostada do couro dele. E a nascente, ah, a nascente lá por detrás, nos verdores finos e escondidos de matas frias do chapadão, não soube de nada. O rio despencou sem perdoar e sem sentir culpa de nada que boiou nele.
Senhor gringo, o senhor acaba de me desenrolar que eu sou a água limpa desabada da serra que não responde pela estagnação da baixada fedorenta. O que o leitor fabrica no seu cimento morto usando as minhas águas de vida do Diadorim, o senhor chama de “terceira coisa”; eu chamo, então, que isso que brota na lama é o puro e cego bicho-do-cruzo. Não tem rastro de minha intenção nele, ele não puxa aos pais das palavras. Nasce só e trumbicado, fruto do barro amargo com a água viajante. O bicho é manco e odiento? A maldade brotou da terra cega de quem aparou. O bicho deu em lisonja e flores miúdas de flor-do-campo? Foi o adubo fofo e perdoador do encanto na terra de quem aparou a cachoeira da vida. Eu aceito com dores, mas aceito ser tão-somente a pederneira do relâmpago batendo faísca pra fora do meu juízo e não podendo mais domar as cobiças alheias de quem amansar as palavras.
Mas o senhor me entenda, o coração de moço e estripulia velha custa a dominar de se aquietar debaixo do sereno na varanda. O juízo clareou que a água de longe não contamina a cachoeira mãe da serra, e eu estou curado desse espanto, dou minha palavra. Mas e a cisma nova que acudiu de supetão?
Se o que viaja nas minhas dores escritas é puro e só a faísca e o risco mudo e sem corpo; e se a lida alheia que o leitor ajunta vira um bicho-do-cruzo, forjado mais no coração trancado do ouvinte do que no meu… Seu Ted, se eu esvaziar a minha memória no papel pro alívio e aceitar o sumir da minha mão pro rio, e o tempo fechar os meus olhos de velho amanhã, quem amparará o Diadorim das nascentes que guardo de dentro da cabeça? Se o fôlego morre, e o escrito descido não retém a verdade viva de quem era e sentia o cangaceiro com os olhos de fechar relâmpago, o escrito vinga, ou a criatura de Deus morre mais uma vez por faltar quem guarde o seu primeiro abraço? Se a “terceira coisa” tem pátria no que lê, a minha estória salva o meu morto ou só assombra um novo vivente com a invenção da mesma dor?