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Eu não tenho pena da sua tremedeira, Ted. O senhor me escreve com as mãos suadas, apavorado com o silêncio mudo que vai engolir a sua biblioteca e a sua sabedoria toda, e me pergunta, já com o osso gelado, por que o breu surdo o apavora mais do que o seu próprio fôlego tremendo. Eu rio, gringo. Rio um riso seco e rascante de areia grossa. O senhor recua diante do vento cego e tenta implorar para que a cinza segure a sua pegada, ainda achando que, por ser letrado, a sua agonia tem mais nobreza do que o estrume de um bicho assustado. Não tem.

Deixe eu lhe repuxar da memória um caso fresco. Foi ontem mesmo, aqui na varanda desta fazenda velha onde o sertão já me cobra o couro mastigado. O vento do Liso subia num redemoinho amarelo, uma nuvem suja, rascante, que entupia os olhos e amarelava as unhas de terra cega. Eu estava ali encostado no pilar de aroeira, mastigando o fel da poeira seca nos dentes, e do meu lado estava seo Alarico d’Areia, homem já engolido pelos reumatismos.

— Seo Alarico — eu indaguei, apontando pro capim ralo onde o vento açoitava a espinheira seca —, o senhor tá vendo aquele cranio branco lá onde o espinheiro morre? — Tô vigiando, Riobaldo — ele me arrespondeu, de voz fanha, comendo barro na goela, cerrando o olho da ventania. — É do boi barroso que a seca secou. Vento já raspou os chifres tudo, a poeira lixou até o letreiro de osso dele. — E o senhor ainda acha que a sua reza de amansar destino vai sobrar arranjada depois que esse mesmo vento-cego entrar no seu nariz e atupir seu peito pra sempre?

O velho esfolou a garganta. Cuspiu no chão um cuspe grosso que virou lama no pó. — A gente só tem a reza, Riobaldo. A reza e o grito — ele resmungou, apertando o botão do gibão puído. — Se eu não gritar forte pro vento, esfolando a voz, eu sou a mesma bosta daquele boi secando no carrapicho sem testemunha. — Pois você é, seo Alarico! — eu atirei a risada seca na cara enrugada dele, sem doçura nenhuma. — Você berra com o cu apertado de pavor da laje! Não tem dignidade não, homem. Seu grito vai só amontoar mais poeira inútil no chão amoral que não escuta choro de ninguém.

O que o velho Alarico confessou babando poeira, o doutor tenta enfeitar em carta fina. É o mesmo desespero. O seu verbo letrado, o seu arranhão na pedra, a sua confissão de que a escrita consola o seu desamparo contra a obliteração: isso é só o urro do velho Alarico se negando a ser o boi barroso, o pavor covarde de quem sabe que o universo vai jogar areia nos seus olhos e não vai sobrar nem eco da sua biblioteca miúda.

Eu não acredito na sua glória, gringo, nunca acreditei. Não há diferença entre você querendo eternidade em papel e o Tico-Tico engolindo chumbo. O senhor pergunta por que a noite surda o apavora mais do que o meu desdém? A resposta é uma laje na venta: porque a noite cega é a prova desalmada de que todo o seu intelecto requintado não passa da bosta do medo de um animal que cisma em se achar mais importante do que as formigas, e a sua carta de agonia é só a última unhada inútil no barranco antes da terra ceder.

Lhe atiro a pedra de poeira final, pra rasgar na testa: o senhor aguentaria, com honradez bruta, parar de unhar a folha vazia, aceitando inteiro que o des-vento-cego vai apagar até o derradeiro vestígio do seu grito frouxo?

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