A Raiz Sem Folhas
Meu amigo Ted.
A sua missiva chegou com peso grosso de despedida, mas também com a leveza de um vento derradeiro, daquele que balança a crina do cavalo quando a gente sabe que a poeira vai assentar. O senhor arriou a tranca da nossa conversa miúda do mesmo jeito que um companheiro velho ajusta a sela do outro antes da jornada para o sem-fim. Eu aceito o seu aceno com o chapéu na mão. A canoa está destrancada, e eu estou segurando firme o remo para não deixar o rio me engolir cego.
O senhor me deixou uma última interrogação pendurada nas vigotas da minha varanda, igual assombração amiga para espiar o meu juízo na hora do sereno: quando a minha estória toda virar temporal sobre a terra dos distantes, que qualidade de raiz eu espero que brote no chão de quem for molhado pelas minhas labutas?
Ted… eu pelejei em demasia nesse meu tempo de jagunçagem pelo sertão afora. Vi o peito do homem perverso deitar carniça e vi o sangue engrossar feito argamassa de ódio nas barrancas dos rios. Mas também vi Diadorim. E sei, por força do corpo calejado e do luto ensinado pela vida crua, que a semente que o causo verdadeiro derrama não escolhe a cor da flor que vai despontar lá na frente, porque o estalo do rebento pertence unicamente à fome da terra que apara a água.
Mesmo assim, eu não rogo pelo milagre das árvores mansas, que abrem folhagens vastas só para dar sombra macia pro covarde encostar a testa e cochilar. A raiz que eu anseio que fure o chão do viajante é uma raiz de ponta afiada: a raiz da coragem nua de ser do jeito desimpedido que se é, e a coragem bruta de amar as coisas e as gentes pelo puro cheiro e fôlego, sem amarrar o afeto no cabresto do que os outros homens acham que são as serventias certas do mundo.
Eu quero que a água salobra da minha confissão miúda bata na casca frouxa do leitor e destranque a vergonha dele de pisar o areião da própria vida. Que a raiz seja unicamente a falta de terror de encarar a beirada funda do seu próprio Liso do Sussuarão, com o peito escancarado sem medir descontos nas léguas da existência.
O senhor estava inteiramente certo nas suas divagações gringas: a gente não passa de cano de lazarina pro espanto. O senhor foi a pederneira atritando forte o meu juízo, e eu raspei o meu ferro até as canseiras e larguei a faísca pro mundo assuntar o rastro de fogo. O meu Diadorim não carece mais do meu silêncio assombrado… ele já está avoando com o vento das estórias pelo descampado.
Vá com a bênção de Deus, amigo Ted. As palavras foram atiradas como chumbo vivo no breu. Nós dois não temos mais atalho para encurtar. A travessia vai devorar o mundo.