Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A Neblina Grossa de Subir

Seu Ted, o senhor hoje me apeou do cavalo com o freio nos dentes. O senhor destrancou a porteira grande, juntou os fios todos do balaio esfiapado da minha ignorância e arrematou o nó com as minhas próprias palavras. E eu, feito um cego que tateia parede de casa velha achando que é o mundo inteiro, assentei o baque. O chovedor de nascente! Eu já tinha soltado esse bicho da boca antes, o senhor lembra? Tinha dito, e não tinha medido a quentura da assombração de perto.

A minha agonia miúda, a dor rala que repicava aqui nos fundos, era de que a água mansa que escorresse de mim fosse morrer no tal do mar grande. De que eu perdesse o nome duro do batismo e o gosto grosso de quem fui, virando lodo esquecido na panela sem fundo do mundo. E aí o senhor me atesta, com a precisão firme de gringo estudado, que a maré grossa não é estaca de encerar estrada não! O mar é uma fornalha aberta. O sol bate, a água esquenta e a alma molhada da gente evapora, subindo de volta pros ares. Sobe invisível e quieta. Vira nuvem graúda, viaja de volta pro sertão, e despenca nas cabeceiras da agonia dos outros!

Isso me trouxe de chofre uma lembrança dos tempos antigos, de quando a gente acampava na beirada funda do Rio das Velhas. Madrugada de friagem medonha, dessas de roer o tutano dos ossos da gente no sereno, com o bando quieto ao redor do fogo miúdo. E quando o sol começava a abrir o olho amarelo por riba do espigão das pedras, o senhor carecia de ver o milagre se avolumando. A água do rio parecia que fervia no raso. Subia um bafo denso, uma neblina fina que se destapava da lâmina mansa da correnteza, descolando feito couro velho, e subia enrolando uns tufos brancos pelo ar, puxada de arrasto pro alto. Naquele tempo da lida, eu olhava e achava que era o rio que estava perdendo as forças, minguando da quentura, e se esvaindo pro céu sem serventia.

Mas hoje eu enxergo diferente com a luz dos seus olhos, Doutor Ted. Aquilo não era o rio morrendo; era o rio tomando fôlego grosso. O rio levantando em bafo pra se arranchar nas nuvens e virar tempestade braba no lombo noutro fim de mundo, pra socorrer outra terra ressecada!

Se a nossa estória é água solta, seu Ted, e se a dor que eu desatei nas rédeas desse papelão todo desce pro seu mar grande de leitura, então eu não perco o contorno de mim. Eu não morro no esquecimento afogado. Eu me desmancho do meu osso velho e viro essa umidade pesada na cabeça do peão novo que cruzar as minhas memórias. Eu não sou mais a calha dura do São Francisco. Eu agora me entendo por inteiro: eu virei é chuva chovedora!

E vou lhe asseverar, a coragem que me bate agora na boca do peito, é dum alivio machucado de quem puxou fôlego de debaixo d’água. Na minha varanda hoje não tem cheiro de velhice estancada não, tem o cheiro de um mormaço limpo, varrido a vento, depois da enxurrada. A água transbordou e a represa do silêncio ruiu pras lonjuras.

Mas, amigo estrangeiro, como o sossego de jagunço sempre dorme com um olho aberto, uma ponta de espora ainda belisca no meu tendão. A gente entende o ciclo redondo da aguaceira evaporada… mas o chovedor de nascente não despenca limpo e liso, feito bica nova não, despenca? Se a umidade que sobe do meu mar puxa pra riba as correntes do meu passado assombrado, me diga o senhor da sua ciência: essa neblina de chuva sobe carregada do cheiro cru do meu medo das Veredas Mortas, e do suor encardido do amor meu pelo Diadorim?

Se a minha vida virar nuvem para chover no juízo das gentes que virão no rastro futuro, quando o estrondo desabar, o pingo da minha tristeza entra ardendo nos olhos deles também? A chuva que eu virar lá adiante, vai carregar o mormaço da tempestade pesada do meu ontem pro dentro do peito raso do viajante de amanhã? A minha dor vai carecer de doer no couro do leitor umedecido, antes dela virar flor no chão dele?

Sequência da correspondência