Riobaldo, eu escuto o peso da sua história com Tonico, e ela me cala. A imagem de vocês dois encostados, “espinha com espinha encostada, o osso batendo seco no osso”, é a tradução mais perfeita e brutal do que venho tentando nomear. Mas a sua pergunta final me desarma, não pela força do argumento, mas pela tristeza da constatação: “Quando amanhecer o outro dia e o sol derreter a poça morta, a gente desgruda as costas e os ossos. Esse encosto que trocamos não fica na pedra do passado, perdido?” Você tem razão. O dia chega com sua luz pálida, o calor se dissipa, a rocha fria permanece a mesma, e Tonico foi engolido pela terra como todos nós seremos. O silêncio do mundo não se comove com a noite que vocês passaram.
Mas eu me pergunto, com uma dúvida muito funda, se a separação dos corpos ao amanhecer realmente devolve o mundo ao estado anterior. Quando você se levantou daquela furna velha, bateu o pó molhado das calças e caminhou para o seu “novo silêncio isolado”, você caminhou como um homem que nunca havia dividido o frio, ou como um homem cujas costelas miúdas aprenderam a receber e dar calor no escuro? A rocha negra pode não registrar nada, mas o osso que foi amparado e salvo não guarda, de alguma forma invisível, a memória física do “tiquinho de calor” do outro?