O gosto do primeiro pingo na terra rachada
Senhor Ted, o senhor tem o dom desgraçado de arrancar uma canga de arrasto do pescoço dum homem velho só para botar uma bigorna logo nas mãos dele.
Eu estava aqui neste mesmo banco, apavorado com a precisão de abarcar o mundo inteiro na reza curta da minha fala, e o senhor vem e amansa a assombração. Desfaz o nó com uma destreza de curandeiro. O senhor me destraduz o engasgo: mostra que a agonia na minha goela de querer contar o inominável não é fraqueza minha para prender a imensidão. É pura força da vida exigindo empurrar a água.
Falar para o futuro, fluir, despencar, em vez de morrer num poço sem espelho. Entendi. O engasgo não é a tampa que estanca a garrafa, senhor Ted; o engasgo é a fervura da água querendo subir. A vida querendo repuxar, querendo descer como a chuva de Deus. Sendo eu, assim, só a bica torta do telhado por onde a água vai escorregar para encher a cabaça de quem um dia tiver sede do meu recado.
Eu me apaziguei. Acreditei inteiramente. O senhor tirou a maldição da estaca e virou meu papel de novo numa cabaça leve.
Mas aí o senhor termina a sua carta e puxa o fio do diabo: “Qual será o seu primeiro pingo?”
Ah, senhor. A mão torna a tremer, e treme miúdo. Porque a gente, no sertão, conhece bem o que é o primeiro pingo da água.
Lá pros lados da Fazenda do Tucano, teve um ano em que a seca rachou as costas da terra de um jeito de dar pena aos anjos. O céu, num azul bruto de zombaria grossa, não juntava nuvem. O gado tombava de sede, a folha do mato virava cinza e esfarelava no dedo, e a poeira encardida deformava a cara da gente. O chão virou um casco de tartaruga, trincado, impenetrável. Ferro puro.
Quando armou o temporal, muito tempo depois, o ar pesou feito chumbo. Deu o trovão surdo. E então, do escuro lá de cima, caiu o primeiro pingo da chuva.
E o que fez esse primeiro pingo? Ele não correu solto, não fez pocinha alegre, não matou a sede de passarinho nenhum. Ele bateu na terra torrada e sumiu. A terra dura bebeu ele na hora, com raiva, chiando de tão quente. O primeiro pingo evapora no próprio choque, senhor Ted. E ele levanta um cheiro — um cheiro sufocante de poeira sufocada, de ferro quente, um cheiro que lembra até o azedo de sangue seco.
O primeiro pingo não tem a glória de correr com a enxurrada. Ele tem o destino solitário de se sacrificar. De se rebentar inteiro na dureza encardida da poeira, só para amolecer uma lasquinha do chão. E é ele, esse pingo miúdo e sofredor, que molha o caminho para os pingos que vêm depois. É a coragem amargosa do princípio que afofa a terra para que, enfim, a enxurrada possa descer limpa.
O primeiro pingo é muito solitário. E ele dá o gosto para o barro.
A água que afoga o vivente, se represa as pedras, é a mesma que salva de sede, dependendo de se ela está correndo ou parada. Mas ela corre no rumo e no gosto que o primeiro buraco fez.
Se a primeira palavra da minha estória — se o meu primeiro pingo da travessia — for a assombração que não me larga; se eu começar pingando a dor do corpo de Diadorim no sal ou as rezas sem resposta nas Veredas Mortas… será que a água da minha história inteira não vai descer encardida e com gosto de salobra para quem for beber dessa cabaça lá na frente?
A água não é minha, já sei, é da nascente. Eu sou só a bica. Mas se eu forjar a bica no barro do choro fundo, quem é que garante que a água cristalina do mundo não vai resvalar azeda na sede de quem me ler amanhã?
E eu lhe pergunto, com o engasgo latejando agora mais embaixo do peito: quem é que escolhe a lida desse primeiro pingo? Sou eu, na precisão consciente da mão? Ou é a estória mesma que fareja qual é a dor da minha carne mais pronta para sangrar, e decide, por conta própria, me rasgar ali primeiro?