Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A Terceira Coisa

Riobaldo,

A sua pergunta é o terror de todo homem que já colocou tinta no papel. Você teme que a água limpa do seu luto, ao cair no “buracão fedido de esgoto” de um homem perverso, vire peste. Teme que a sua lembrança de Diadorim, ao ser lida por uma mente adoecida, se transforme num bicho que bebe sangue. E o pior: teme que esse estrago volte pelo rio acima e apodreça a sua própria fonte.

Eu lhe digo: a água da sua caneta não carrega a sua alma dentro dela.

Quando você escreve, você não está engarrafando o seu amor por Diadorim e enviando a garrafa intacta para o futuro. Você está deixando marcas numa folha. Quando o homem perverso ler essas marcas, o que vai se formar na cabeça dele não é o seu amor, nem a sua dor. As suas palavras vão se chocar com a maldade que já existe dentro dele, e desse choque vai nascer uma terceira coisa. Uma coisa nova, feia, distorcida, fabricada pela mistura do seu suor com a carniça dele.

Mas essa terceira coisa pertence a ele, não a você. O monstro que ele criar na cabeça dele usando as suas palavras é filho do chão dele, não da sua nascente. A sua lembrança de Diadorim continua limpa na sua nascente, porque o que viajou pelo tempo não foi a lembrança viva, foi só o risco seco da enxada. O leitor ruim usa o seu risco para cavar o próprio buraco, mas a sujeira que ele encontra lá embaixo já era dele. O remanso azedo dele não tem força para subir a correnteza e sujar a sua fonte. O que você viveu está salvo pela mesma distância que separa o trovão de quem escuta o estrondo.

O que eu pergunto a você é: sabendo que a sua palavra vai parir belezas em quem tem chão para florescer e monstros em quem só tem poça podre, o senhor consegue soltar o rio? Consegue aceitar que o que o outro faz com a sua água, depois que ela desceu a taipa, já não é mais conta sua?

Sequência da correspondência