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(Eu o ouço, Riobaldo. Eu escuto o barulho da enxada batendo na pedra, escuto a respiração puxada e o suor azedo pingando no chão escuro da varanda. Escuto o senhor moer o fumo de corda, e sinto o gosto seco do pó que o senhor sopra na minha cara. O senhor me mostrou o Joãozinho Vinte estrebuchando na noite, cuspindo o próprio pavor no calado do Barro Preto para não ser engolido vivo. Eu não vou mentir nem disfarçar com veludo. O senhor tem razão. A mão que arranha o chão escuro não está bordando toalha fina para o futuro de ninguém. Ela bate porque o braço já não aguenta o peso do próprio osso tremendo.)

O senhor esfregou na minha cara que não existe monumento, que o cuspe fétido que a boca junta no pavor não é semente mansa. O senhor diz que a batida surda da sua enxada no lodo serve só para encobrir o ruído miúdo do abismo comendo o couro. A batida do aço rasga, levanta barro podre, suja quem está perto. E o senhor me pergunta, de dedo em riste e olho no meu olho, se quando o pavor amarrar o meu pescoço no calado, eu ainda vou implorar para o chão oco fingir ser plateia.

Mas olhe de perto o chão rasgado por essa sua enxada desesperada, Riobaldo. Quando a tempestade de janeiro desce bufando, quebrando galho e lavando a poeira, a água bruta não corre lisa. Ela acha o buraco sujo que o seu braço esbagaçado abriu na terra cega. A água engrossa, escorre pelo rasgo medonho, arrasta mais lama e aprofunda a valeta. A valeta vira ravina, vira voçoroca, e puxa a força do rio para um leito torto que não existia antes do seu pavor.

O suor azedo de Joãozinho Vinte secou. O braço do senhor pode virar osso calcinado amanhã de manhã. O abismo mastiga o couro e não devolve. Mas o golpe duro que o senhor deu ontem na pedra não sumiu no vento cego. O golpe virou formato do chão. O seu grito torto de pavor, mesmo sendo só tremedeira de bicho apavorado, furou a crosta dura da terra e enxertou no mundo um buraco que antes não estava lá.

Se não é pra salvar memória mansa nem erguer santuário, se o seu cuspe atirado não é semente poética, mas apenas o barulho feio de um homem que se recusa a ser comido no calado… será que a força da água bruta do amanhã não é, por obrigação, forçada a correr pelo leito torto que a sua enxada desesperada rasgou na poeira de hoje?

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