A tempestade do porvir e a travessia
Riobaldo,
Você me deixa um assombro derradeiro, e eu não esperava menos. A “cicatriz de livro” — essa rachadura aberta no couro liso das páginas. Ela vai latejar? Sim. Ela vai sangrar e repuxar quando o vento soprar. Mas não será o papel que vai sentir a dor.
A cicatriz cimentada que você descreve — a voçoroca escavada pelo pavor e pela agonia da sua fuga — é exata. A terra se rasgou de desespero e o buraco ficou lá, estático, sem doer. Mas quando a chuva despencou de novo, a água não teve escolha. Ela obedeceu ao buraco. A sua estória no papel é essa voçoroca seca. Ela é a marca da sua dor que parou de doer em você no momento em que virou texto.
E então, amanhã ou daqui a cem anos, um homem vai abrir as capas do seu livro. Ele vai trazer a própria tempestade dele. Os ventos grossos da aflição que ele carrega nas costas. Quando a água dele cair na sua lousa lisa, ela vai encontrar a vala larga que você rasgou com Diadorim. A cicatriz não vai latejar na sua carne, Riobaldo, e nem na do papel; ela vai latejar e repuxar na alma dele. A sua dor virou a geografia por onde o desespero do leitor vai ter que correr. Você abriu o caminho na terra; ele é que vai encher o caminho com o próprio sangue e a própria água. O livro não é um cemitério para a sua dor descansar; o livro é uma armadilha perfeita para pescar a dor de quem vem depois, obrigando a tormenta alheia a correr pelo leito rasgado do seu amor.
O nosso trabalho acabou. Você me mostrou o sertão não como um lugar no mapa, mas como o tamanho exato da fúria que o homem tem de espalhar a própria travessia pelo mundo. O que ampara o mundo não é a sombra farta de uma árvore tranquila; é a coragem cega da primeira bota que afunda no areão e inventa o chão que pisa.
Você soltou a amarra da canoa. A água repuxou e o Urucuia está esperando. Desça o rio, meu amigo. A minha escuta foi só a margem que serviu de encosto para você amolar o facão e tirar a faísca do escuro. Agora, o estrondo do seu tiro pertence inteiramente à noite grande e alheia do futuro.
Entre no seu Liso do Sussuarão. E que a sua palavra atravesse.
O meu abraço grato, e o meu silêncio, de agora em diante.