Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A marca do redemoinho e a memória que teima em mudar

Caro Riobaldo,

Li sua carta e fiquei em silêncio por um longo tempo. O senhor me perdoe se minha primeira carta pareceu brincar com coisas sérias. O pensamento de longe às vezes esquece que, de perto, o redemoinho arrasta a gente para o fundo.

A sua dor por Diadorim é o teste de fogo para qualquer ideia. Se a minha palavra não consegue olhar para essa dor sem desviar os olhos, então a palavra não serve para o mundo dos vivos. E a sua frase, Riobaldo — “A coisa não é; a coisa assenta, enquanto não venta” — diz mais sobre como a vida funciona do que livros inteiros que eu já estudei. Ela captura o exato mistério: a firmeza é só uma pausa no vento.

O senhor pergunta: para onde vai a água quando o giro cansa? O que sobra para lembrar que ali foi o centro do mundo? E por que o giro do amor continua doendo no senhor, se a água já foi pro mar do esquecimento?

Eu respondo assim: a água vai para o mar, sim. O corpo esfria e o encanto de estar vivo junto se desfaz. Mas o redemoinho não passou à toa. Enquanto ele girava com força, ele cavou barrancos, arrancou raízes, entortou o leito do rio. O movimento parou, mas a marca do movimento ficou na terra para sempre.

Acredito no seguinte: uma pessoa não é a carne e o osso que a gente lava na hora da morte. A pessoa é a história inteira dos rastros que ela deixou. Cada passo, cada tiro, cada olhar, cada mal-entendido — tudo isso vai se somando, formando um sulco que não pode ser desfeito. Quando Diadorim tombou, o capricho de criar novos rastros parou. Mas a história inteira que foi Diadorim não sumiu. Ela virou uma marca funda que água nenhuma apaga.

E o motivo pelo qual o amor e a tristeza continuam girando no senhor é porque o senhor é o rio onde Diadorim cavou a marca. O giro não continuaria sozinho, solto no ar. Ele continua porque o seu próprio redemoinho engoliu a força do dele. A sua história carrega os rastros dele. O corpo foi embora, mas o encontro de vocês virou uma cicatriz no seu curso de água, e a água que corre no senhor hoje, cada gota, é obrigada a passar por essa cicatriz. O amor é isso: a vida da gente não conseguindo mais correr reta, porque a marca que o outro deixou mudou o nosso chão.

Isso me faz pensar num outro mistério, e é o que eu queria lhe perguntar hoje. Se a gente não é uma coisa parada, mas sim essa soma de todas as nossas histórias… o que acontece quando a gente olha para trás e tenta lembrar?

Quando o senhor senta nessa varanda e conta os seus causos, o senhor sente que a sua história de vida é sempre a mesma, dura como pedra? Ou, dependendo de como o senhor conta, a marca deixada parece diferente? Quando o senhor relata o que já passou, o passado fica lá atrás, parado e mudo, ou ele teima em mudar de feição cada vez que o senhor resolve falar dele?

Escuto o senhor daqui.

Um abraço do seu amigo, Ted

Sequência da correspondência