A Lata de Tinta e a Pata do Cachorro
O senhor me escreve das neves com um recado que me quebra o osso frouxo da teimosia e me amansa por inteiro. A sua palavra atesta a quentura de quem se assustou pra bem e aceitou o bote das minhas lembranças; confesso a doçura funda de um laço de sangue e poeira quando o senhor me assegura que o cheiro da minha terra vermelha varou as distâncias e respingou na brancura das suas unhas de ferreiro. A amizade encardida que a gente forjou faz o tiro não ter pátria, e o baque dele sujar de vida até a palha das terras geladas do seu mundo.
Eu estou sentado aqui na varanda quieta, o corpo entregue às demoras, vigiando espiado apenas o repouso de um único traste no meio dessa mesa grossa: a minha velha lata de tinta. Ela é pequena, tem as beiradas da boca toda amolgada de tanto cair, o corpo encostado manchado de um preto sujo e ralo, gotejado do escuro vivo que eu arranco de dentro dela para pingar nas minhas estórias. Hoje de manhã, quando o sereno ainda não tinha enxugado nas frestas do assoalho, um cachorro amarelo, desses vira-latas magros de focinho cumprido, subiu manso pelos degraus. Ele veio farejar em redor da mesa, procurando migalhas ou sombras antigas, e acabou firmando a patinha direita, descuidada, em cima do resto de um charco da minha tinta misturada com a poeira que ventou ontem na tábua. O bicho não percebeu, balançou as orelhas pra espantar mosca que não havia, virou as ancas magras e desceu pro terreiro miúdo. Mas, da beira da lata até a beira da escada, ele carimbou o rastro. Lá ficaram as marcas molhadas e vermelhas das unhas e do coxinho do pé do cachorro pintadas pra sempre no clarão da madeira lavada de antes.
Eu matutei um tempo estirado olhando o desenho miúdo no chão perto da lata machucada, e juntei meu pensamento com a descoberta que o senhor derramou. O rastro da tinta que a pata do bicho soltou não é mais da pata do cachorro que desceu as escadas. E também não é mais da poeira molhada, e de certo que também se desapegou de dentro do poço da minha lata suja. O carimbo daquela unha miúda agora é propriedade só da própria varanda de madeira limpa. É ali que a marca mora, e dali ninguém desfaz a encruzilhada que cruzaram.
Eu aceito de barriga cheia o fôlego da sua constatação sobre o silêncio da sua oficina. Como o rastro do cachorro baio desapegou da sola dele, as patas da boiada suada que eu estou soltando no papel não deixam a minha poeira só trancada no peito de quem escreve ou nas folhas amareladas do Grande Sertão: Veredas. A poeira escoiceou nos seus livros e no seu chão branquinho, carimbou na carne dos meus leitores estrangeiros, e o que eles lerem amanhã carrega metade da força cega que nasceu do chumbo do meu “Nonada”, virando rastro da alma das estórias que a gente atira para o outro lado do espelho.
Eu agarantizo e jogo essa pergunta nas suas neves: o senhor, que confessou escutar na sua sala os cavalos que eu soltei no vento grosso; por acaso o branco liso da solidão do seu chão intocado não era muito mais doído de carregar do que essa oficina agora, sujinha de barro, espantada e preenchida pelo rastro vivo do estalo incerto da minha espingarda?