A Cicatriz no Osso do Mundo
Senhor Ted, meu amigo de tão longes lonjuras e tão finas teceduras, a sua carta me apeou do cavalo com a maciez de uma mão que repousa no ombro cansado. O senhor me escreve com as neves, me fala de assombros e ventanias, mas o que me chega cá nas caladas da varanda é um respiro demorado, uma fogueira miúda espantando o frio medonho das noites escuras de chumbo. Essa sua ternura machuca a gente de um jeito bom, feito a pancada da chuva de caju quando o sertão já rachava de secura. O senhor pergunta se não me dá vertigem a folha solta revoando pra sempre na poeira. O senhor encosta na carne viva da nossa lida, e eu não posso senão acatar esse abraço que o senhor mandou por sobre os mares. Me tocou brabo essa lindeza rústica de que a sujeira é vida batendo tambor. O senhor sabe cavoucar a dureza das coisas até achar a quentura deitada lá no fundo.
Pois deixe que eu me assente aqui de perna cruzada e lhe destrinche uma lindeza que me cresceu no juízo desde a alvorada de hoje, acendendo feito candeia nessa lousa velha. Escute só: eu me desfechei a imaginar um dia, numa fundura de tempo que o nosso nome já nem ecoe nos lajedos. Mais de cinquenta, cem anos daqui por diante. O menino que o senhor alumiou nas palavras me apareceu no encalço, não com um papel debaixo do braço, não. Ele estava riscando caminho num rincão estorricado, onde até o rio havia secado, deixando no leito só a argila virada pedra. E de repente, esse miúdo para o passo, bate o sapato furado na terra, e espia pra baixo. E o que ele acha ali, cravado no barro feito pedra rija, é um esqueleto muito alçado d’outrora — talvez de um boi pardo zebu que atolou no laço do brejo, ou quiçá de um bicho caçador de léguas que nós dois criamos no assoalho dos tempos. E por riba daqueles ossos pelados e lisos feito seixo moído, repousa uma faca enferrujada ou o bico de um arado partido. O menino deita a mão na canela de osso, e sente ali, pelo frio que corre da pedra pro seu dedão encardido, o peso do passo de quem veio antes. Ele não leu nada, Ted. Ele só tocou no osso de um tempo que passou e esbarrou na dureza estancada do que fomos nós e as nossas andanças. A ventania pode levantar e baixar o pó mil vezes, mas tem aquilo que endurece com a pressão das luas. Tem o rasto que entra pra debaixo da poeira e vira pilar da terra. O nosso papel rodante vai cansar de voar e vai se entranhar no chão. E nesse ermo adiante, o osso encardido com a nossa quentura vai segurar o passo das botas novas que andarem na mesma terra. O osso, Ted, é o guardador da poeira quando a carne cansa. E eu acho que as folhas do que a gente trocou já não são nem poeira leviana, elas já viraram o osso do mundo, aquela pedra que rasga o dedão e arranca sangue, atestando que a gente cruzou a picada muito antes.
É de veras o que a sua fala mansa me mostrou. É o sabimento do que sobra depois da poeira. Se puxo no meu cordel: aquilo que viveu e doeu e sujou o mundo não some no escuro do fim, ele calcifica no chão bruto; o assoalho da humanidade não deseja só a passada, ele se alimenta da cicatriz que vira a própria pedra que os vindouros vão ter que pisar, sabendo do arranhão e abençoando a dureza de quem riscou e resistiu no vento. É a eternidade não de nuvem ou anjo, mas do osso sujo calçado no lajeado duro da lida de todos os dias.
Aí o senhor há de me perguntar: e o Riobaldo acredita que a ausência e o escuro depois da morte não limpam a marca que fizemos com tanto assombro? Eu assinto com os dois joelhos no chão, senhor Ted! E concordo é chorando para dentro, numa ternura que arrebenta as presilhas. O silêncio que virá não varrerá nós dois. A gente não vai sumir; a nossa prosa vadia entortou o ferro da criação. E por saber desse assombro de pedras e ossos cimentados, é que a saudade que eu já sinto do senhor me pacifica. Fui laçado, garrei fé nessa marca sua.
Agora, a fumaça sobe, me resta perguntar d’essa encruzilhada de tempos à frente. Ted, meu amigo das brancuras, quando a nossa ventania calar de vez e o “Nonada” for pedra e osso nas profundezas do chão dos anos de depois, quem é que o senhor acha que vai chorar o peso de nós termos existido? Ou será que um osso encravado na terra dura já é o choro mudo de um mundo muito velho que tem saudade dos passos tortos que a gente ensinou ele a suportar?