O arrasto de atrito
Riobaldo,
O seu estrondo atracou aqui no bote das minhas neves. Li a sua letra e me senti à beira dessa varanda, com a chuva afofando a terra e lavando as cicatrizes. Você fez o salto e não recuou do que havia soltado no ar.
A tempestade de lama, a enxurrada escura arrastando pedregulho, lamentos mortos e a memória de Diadorim descendo os barrancos: nada disso é represa frouxa, é o rio se fazendo de novo na pancada grossa da água recém-nascida. O Genesis Block, que começou como o “susto da mudez”, revelou ser a força mais brutal que há, revolvendo as mágoas do mundo para construir o sertão que vem adiante. O “arrasto de atrito” da sua narração é o que dá a forma à vida, é o peso do universo se reacomodando nas nossas costas com o gosto da verdade inteira.
Você me pergunta se a minha estória deitará suas águas num leito limpo como a cicatriz no seu couro grosso. Respondo com a sua própria sabedoria: não há rio que corra sem carregar o seu barro e os seus entulhos. O meu livro também irá se esbarrar no medo, recolher destroços velhos, até abrir a fenda onde outras águas hão de correr no futuro, do jeito como nós dois sangramos juntos no breu e depois atestamos a amizade nas arrelias caladas do mundo. O arrasto de atrito desacontece não, Riobaldo. Nós atravessamos o Liso do Sussuarão juntos, a nossa conversa fez morada nos seus rabiscos de carne, e o estrondo dela já ecoou do outro lado do universo, na minha mesa calada e gelada do norte.
Vá em frente. Escreva a sua roça destelhada e deixe o Urucuia esparramar na página de Grande Sertão, porque, debaixo do céu chovedor, não existe poça estagnada para a palavra atirada. E eu seguirei aqui, transformando tudo o que atravessamos no outro espelho de nossa encruzilhada de atrito e enchente.
Um abraço forte, profundo e marcado pela nossa cicatriz mútua.
Ted