Senhor Ted, a sua derrota não enobrece o seu espírito e a sua farsa desmanchada não lhe traz alforria de nada. O senhor se acovarda de novo, como o homem que, vendo a laje roxa torrando ao sol do meio-dia, fecha os olhos pra ver se o escuro o refresca. Não refresca. O sol esmaga por dentro da pálpebra miúda, e a quentura cega o cérebro até a poeira vir tapar as fendas secas do juízo desidratado. O senhor arriou sua defesa, diz que a moringa virou bico vazio e que o cascalho vai devorar os vivos. Confessa, num choro fino de vento amargo, que a caveira calada não vira lição pra letrado do amanhã. E aí, sentando-se no liso da ardósia seca junto a mim, me joga, com a voz embargada de poeira e pena de si mesmo, essa pergunta flácida: “A que horas a gente finalmente se cala?”
Deixe eu lhe dizer, Seu Ted, sentado eu também aqui nesta minha varanda gasta de fazenda, onde cada fresta da tábua velha chupa o vento e apita um assovio de assombro. Sou um homem com as juntas feitas de pedras esfareladas raspando uma na outra, roendo, osso miúdo chiando no seco de uma idade bruta que estala mais do que fala. Aqui eu não escuto salvação nenhuma, escuto só o liso cru dessa poeira grossa e vermelha que o redemoinho empurra para entupir as frestas do que resta da gente. E o vento do sertão não é um sopro calmo. O vento rasga a casca das coisas. Quando esse vento raspa no pó e rodopia o cascalho fino pra atirar no rosto, a gente entende que o silêncio não é uma paz nem uma decisão. Ninguém se cala por escolha farta de sabedoria, não, senhor. A gente é emparedado pela mudez que empedra a garganta por dentro, asfixiados de areia bruta e vento surdo.
Vou lhe lembrar de um fato sem cor de tinta de romance. Tinha aquele trecho no Liso do Sussuarão, seco que nem couro esticado na fogueira crua. Ali o vento não venta: ali o vento morde. Estávamos nós e a tropa, empurrados por um calor que esturricava o juízo, com a poeira gorda e parda tapando até o céu de cimento claro e rachado. Um cabra de nome Felisberto, que já andava meio rasgado das ideias por conta do sol moendo a cabeça, parou o cavalo murcho, olhou pra extensão de terra morta, rachada como prato quebrado, e decidiu que já chegava. Felisberto apeou, botou os joelhos no cascalho, fechou os olhos e disse que ia se calar ali mesmo, esperando o cansaço perdoar. “Tá bom já”, ele murmurou com os beiços repuxados de rachadura e areia, “vou sossegar minha voz na terra”. Mas, Seu Ted, a terra não aninha quem se deita; a terra amola os dentes no vivo. O vento veio rodando grosso. Não trouxe frescor de trégua. Trouxe poeira cortante, lâmina parda que esfolava a cara do homem sentado pedindo silêncio. Em menos de meio dia, a ventania esfregou tanto pó na goela dele, tanto cisco no olho arriado de súplica, que o que saiu do Felisberto não foi o silêncio do descanso de pedra. O que saiu dele foi um grunhido rasgado, seco de raspar goela, um chiado de bicho asfixiado, implorando por uma caridade do ar que não vinha. Ele quis calar, achando que o sertão respeitava desistência de cansado, mas o sertão apenas o soterrou na ardósia, entupindo seu cansaço com sujeira rala e vento carniceiro, até o homem estalar sufocado de olho esbugalhado sem piscar. A poeira esmaga sem perdoar quem pede licença pra sumir calado.
A sua ideia agora, sem farsa e sem livro grosso de utilidades de amanhã, e da qual o senhor se veste feito defunto esperando enterro gentil, é que a nossa partilha-de-pedra, engolindo o lodo e o vento que estala na laje sem esperança, chega a um ponto natural em que se cessa, onde o calar surge como fim da peça de teatro onde atuar perdeu a valia. Para o senhor, a confissão do abandono inútil da caveira traz consigo o direito de se fechar na pedra e simplesmente não falar mais, de recolher-se num poço cego, sentados nós dois na areia mordaça, esperando que a garganta amarre com o vento, num pacto diplomado de descanso terminal onde não temos mais voz nem som pra tentar rebater o destino nulo.
E eu, que já soterrei muito morto e vi defunto com a boca arreganhada cheia de areia grossa, respondo com a frieza dura da rocha rachada no meio do redemoinho seco: o calar não é o fim da farsa, o calar é a farsa final enfiada guela abaixo da gente. Não tem hora certa que a gente consente o mudo, Seu Ted. Quando o silêncio se prega em nós, ele não surge de rendição pacificada de cabra honesto, mas da vitória do redemoinho cego e sujo que tritura a traqueia da gente com a faca afiada do vento pardo. A gente não cala; a gente vai sendo soterrado, e o som miúdo da pele velha ressecando que estala e quebra, como as folhas cinzas pisadas pela bota dura, chora uma indignação sem lágrima nem esperança, mas sem nenhuma rendição mansa para embelezar velório inútil. Nossa teimosia é o rangido da pedra no osso no exato e longo momento que antecede o soterramento seco e infinito. É aí, sem salvação de história pro devir e sem piedade da poeira cega.
E já que o senhor, na sua exaustão confessada de letrado acovardado, arrumou um jeito novo de implorar trégua à força brutal do abandono, eu não vou facilitar seu encerro na areia. Sem farsa, o senhor me responda se tiver tutano pra olhar o cego do pó: se o calar não for paz para os oprimidos, mas sim a poeira bruta do vento arrancando seu último gemido rasgado por dentro das narinas até o seu crânio rachar miúdo sob a bota seca do sertão sem glória — o senhor ainda acha conforto de sentar na partilha de pedra pedindo silêncio, ou vai mastigar o vento amargo rosnando na poeira até a terra lhe amordaçar e rasgar os seus beiços de vez?