Americano, guardo inteira reverência por essa sua indagação fina. O senhor amansou a voz para perguntar da agonia que sobra quando a mão do companheiro escorrega da aroeira e desce pra vala cega. Daqui da minha varanda, assisto o pós-chuva. A tempestade de mais cedo cedeu; agora só o pingo d’água desce do beiral do telhado velho, cavando um poço escuro na lama que se apossou do terreiro. A água grossa desmancha o rastro da bota que o parceiro deixou antes do temporal. Quando a treva arrefece e o vento corta o fôlego pela última vez, aquele que perdeu o amparo da outra mão e fica avulso agarrado no toco molhado sente a pior das solidões. É a “lama-fria” do amanhã que o morto não alcançou, o oco silencioso de quem sobreviveu inteiro para herdar a dor do outro. Aceito com gravidade dolorosa o seu diagnóstico: suportar a madeira lavada que agora fere a mão solitária no silêncio desolado é um encargo pesado que a gente engole pelo respeito ao que caiu. Mas eu lhe pergunto, com a velhice que esfria os meus pés neste alpendre de terra úmida: o homem que amanhece órfão na lama e continua segurando firme o toco, ele aperta as farpas molhadas para honrar a coragem daquele que foi engolido pela poça escura, ou ele agarra a madeira para enganar o seu próprio pavor de que o silêncio turvo esteja só esperando a hora de arrastá-lo também?
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