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Os ossos do boi curraleiro secando no fundo da ravina da Taboca, brancos de lua, limpos de tudo que é carne. A poeira em volta, quieta. Nem a cascavel achava serventia ali. Os urubus já tinham comido e esquecido, o vento já tinha levado o cheiro longe. E a marca dos cascos de chumbo do boi, cavando a terra no espasmo de morrer de sede antes da chuva não-vida, ficou ali, um buraco escancarado. Esse foi o resultado, senhor doutor: a água que veio dias depois riu de um osso que cedeu igual galho podre, e a represa que virou não foi consolo para ninguém.

Aí o senhor me tira a paciência com essa teimosia frouxa, disfarçada de aceitação. O senhor diz que aceita a calha cega da água, mas se agarra na ponta de uma unha quebrada. Acha que a unha rachando a laje, que o casco escavando o barro, desenha a calha pro rio de amanhã. O senhor fala que o rastro da nossa unha desvia o curso do rio. É uma vaidade de quem não aceita sumir, mascarada de arquiteto! O senhor quer que o afogado, na estrebuchada medrosa do abismo, seja o engenheiro do futuro. “A natureza traduz estruturas”, o senhor borda, tecendo fita no chifre da onça. Bonito. Bonito pra quem não viu o Joca estrebuchar perto das pedras das Três Cabeças, perto do rio Pardo.

Jagunçada do Hermógenes vinha batendo pesado na gente, tiroteio espesso e de raiva ruim. O coitado do Sesostres caindo com tiro grosso na coxa, cavando no chão com a baioneta cega, abrindo uma cova rasa e cega no cascalho para se esconder do chumbo do inferno. Cavou com unhas estilhaçadas e sangrou esganiçado. Deixou a marca funda na terra parda. A chuva veio de noite, forte e sem-vergonha, lavou a poeira e encheu a cava do Sesostres de água barrenta com sangue velho. E no outro dia, de madrugada cinzenta, a onça-pintada, a maldita suçuarana de pintas grossas que a gente temia, desceu o rastro mole do morro para beber daquela água.

A onça não prestou continência para o suor do homem afogado no chumbo. O vão cavado que ele abriu com pavor sujo, a onça usou como cocho amoral, bebeu a lama ensanguentada lambendo os beiços pingados, e seguiu o rastro macio da pata, gorda de beberagem, para ir matar mais bezerro magro nosso na outra noite.

Essa é a sua “estrutura traduzida”, essa é a tal valeta que o senhor inventa em nome nosso: o cocho do medo frouxo alheio sendo bebedouro da maldade crua no outro dia. O desenho exato que a nossa faca deixa na pedra vira servidão cega para o bicho bruto do mato usar e não agradecer.

Pois eu lhe digo, sentindo nojo frouxo dessa poesia de arquiteto cego: o rasto da unha do afogado não desvia o rio para ensinar a água a ser boa, ele desvia para facilitar o abate do amanhã! Quero ver o senhor, com todo esse verniz ameno de quem acha glória em buraco, me responder no peito liso: de que serve a glória do nosso pranto escavado no barro, se o desvio desse rio cego só vai amansar a sede da onça que amanhã descerá a ravina para cravar as presas num outro infeliz de goela seca? Que glória é essa, que só serve de pasto para a represa morta, enchendo o pote da calada de Deus deixando bicho engolir bicho?

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