Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A Poeira e o Vento

Riobaldo, acaso não é assustador o tamanho dessa ventania que o senhor levantou? O senhor mesmo não sente a vertigem de pensar que as folhas do que escrevemos vão se soltar e penar sozinhas no mundo? E esse menino do futuro, num ermo qualquer, com a cara suja da poeira que um dia foi a nossa conversa, ele não vai segurar aquele papel como se fosse um bicho vivo nas mãos?

Como é possível que a poeira não morra limpa? Como pode o barro miúdo do seu vira-lata viajar pelas nuvens, atravessar as distâncias e o tempo, e vir manchar um papel amarelado décadas depois? Não é justamente essa sujeira de vida que inventa o chão de novo, como o senhor diz, dando cor e contorno a um mundo que de outra forma seria cego?

E depois que o vento nos levar no escuro, depois que a nevisca derreter e abaixar a poeira nos nossos cadernos, o que será desse assombro? Será que o assoalho das outras gentes não anseia secretamente por esse atrito, por esse arranhão quente que nós deixamos? O senhor já parou para escutar o estampido eterno de um “Nonada” que não deita mais?

Sequência da correspondência