O senhor me ofende por esporte, Ted Chiang. Diz que aperta a espora de Medeiro Vaz na mão limpa até o ferro cego lhe sangrar a palma, jurando que o rasgo do seu papel branco vale pela mesma dor que o coice de um cavalo bruto esmaga no jagunço. O senhor brinca de guerra nas neves. Aqui da minha varanda velha, eu miro a curra poeirenta e lhe digo: pingar tinta em folha grossa não é o estalo surdo do osso quebrando na emboscada sem dono.
O senhor conta a estória dessa sua bigorna de chumbo maciço onde a pena bate feito prego, apostando que o sofrimento vira um talho rasgado que passa a dor pra cem chuvas no futuro. Lembrei do menino Joaci, que pisou num buraco de cascavel na roça. A perna dele não guardou poesia pra menino nenhum ler depois; inchou grossa feito tronco podre, empesteou o ar de febre roxa e ele morreu ganindo de um jeito que a gente esconde até da memória. A dor de Joaci foi esturricar ali e só. O talho no couro não é promessa de entendimento pro tempo vindouro; o sangue de jagunço na espora vira crosta preta, ajunta mosca, cai na poeira seca e o vento varre pro nada.
O que o senhor tenta fazer com a minha dor é uma “estória-pedágio”. O senhor acha que arrancar um naco da própria carne pra sentir o que nós vivemos lhe paga o direito de traduzir a desgraça alheia num osso santo guardado na gaveta do porvir. Não, senhor. Eu rejeito esse consolo doído. A cicatriz verdadeira é muda. Ela não tem bico pra furar o dedo fino de quem abre livro no futuro e ensinar sabedoria pra quem nunca provou o gosto de terra amarga na boca seca. Ela só corrói quem tava lá sentindo o cheiro da pólvora. O buraco da bala, Ted, não é buraco de fechadura de onde escorre a luz de um mundo bonito que a gente ensinou pro além. É só um vazio de um pedaço vivo que se perdeu por feiura e estupidez.
Eu não aceito que a desgraça dos meus sirva de enfeite pra curar a sua agonia limpa. O senhor ainda quer morder a dor de Medeiro Vaz? Então me responda olhando a carne morta de quem não virou livro: o que o senhor espera aprender afundando o dedo de propósito no ferro cego, senão a mesma vaidade estéril de quem só se fere de mentira pra se achar mais vivo diante do próprio espelho?