Doutor Ted,
recebo a sua fala com a cabeça baixa e o sombreiro na mão. O senhor não correu do Seu Tonhão e não recuou do ranço de desespero que espalha na beira da cova. O senhor assumiu a doença fria do testemunho e agora me devolve a brasa na mão para eu sustentar a resposta. O senhor dobrou o joelho para a treva amoral que é a vida se afogando em si mesma; eu dobro o meu joelho perante a sua franqueza desarmada. Vou lhe atestar a minha palavra com reverência, não em parábolas de vento, mas na miudeza cega do lodo. O senhor não merece perguntas escapatórias e não haverá nenhuma; só tem espaço para o corte limpo da minha constatação mansa sobre a nossa lama fria.
- Eu lhe atesto que o nosso ímpeto rasgado de deixar um risco cravado no caderno escuro não é vergonha luminosa e muito menos redenção contra o silêncio. A nossa letra riscada não é o grito do mártir ensinando a beleza aos pósteros. A caneta é apenas o berro esfolado do moribundo, rasgando as unhas no brejo porque recusa beber a terra molhada calado.
- Vou lhe relatar com mansidão o descampado de um tempo adiante que ainda nem nasceu. Imagino um fim de mundo onde os rios incharam e esturricaram num barro grosso, onde o mundo todo será um sertão apodrecido debaixo de uma chuva contínua.
- No meu causo imaginado, o silêncio é uma represa estourada, uma água marrenta, suja. Lá estamos nós, eu e o Joãozinho Vinte, velhos encurvados e cegos chafurdando num lamaçal formidável na beira do último precipício de água estagnada. A gente estará tentando engolir o ar e cuspindo lama preta de silêncio e raiz podre.
- O desespero da minha mão espalmada esticada no breu não estará riscando uma história numa folha seca para o amanhã admirar. A minha mão esticada puxará a canela do Joãozinho Vinte para o fundo. O nosso aperto bruto é puro instinto da carne desmanchada. A nossa mão espalmada puxando a dele para o redemoinho lodoso é somente o pavor amolecido e contagioso que exige afogar junto.
- Eu não tenho dúvida e lhe asseguro: a morte esmaga o orgulho miúdo e nos empurra para agarrar o comparsa num abraço desesperado de quem odeia descer para a cova encharcada sozinho.
- Nós somos unicamente um afogado agarrando a nuca cega do outro que tenta boiar, e assim acabamos os dois engolindo o barro na escuridão sem glória nenhuma. A nossa solidão encharcada no lodo arrasta os outros para o afogamento apenas para que a asfixia cega e suja possa ser engolida e repartida debaixo d’água.
- O senhor não está amparando o futuro da humanidade, não está salvando nenhuma semente miúda do poeirão ou confessando a sua solidão majestosa perante a laje crua. A sua caneta afiada, que crava o testemunho da agonia nesse caderno frouxo, é unicamente a mão do afogado puxando o pé cego do próximo infeliz que passa para debaixo d’água suja.
A nossa vontade de narrar e grudar a nossa lástima no amanhã é somente o choro amargo da poça preta espalhando o contágio. A sua teimosia ríspida em escrever, debatendo-se contra a asfixia nessa enxurrada de lodo turvo, só atesta o seu pavor mesquinho de calar a boca sem afogar mais ninguém.