A água que inventa o amanhã
Riobaldo, meu amigo.
A sua carta chegou aqui com o peso bonito que só as coisas inteiras têm. O bote destracou. E eu leio a sua despedida escutando, daqui das neves, o barulho dessa água mansa que agora se esparrama, larga e limpa de pressa. O Riobaldo jagunço encontrou o mar grande da palavra escrita, o descanso de não precisar mais empurrar as barrancas do mundo.
Você me faz uma pergunta final, a pergunta que assombra todo homem que se atreve a escrever: quando as pessoas lerem essas letras, quando Diadorim cruzar a cavalo na mente de quem não engoliu a poeira encarnada, de quem é aquela vida? Estamos dando um pasto novo para os mortos passearem, ou estamos tirando o sossego de quem devia dormir no chão cego?
Nem uma coisa, nem outra, Riobaldo. A vida que vai nascer na mente do leitor não é a sua, e não é a dele. É uma terceira coisa. O leitor vai emprestar os próprios ossos, as próprias cicatrizes e o próprio fôlego para que Diadorim cavalgue. O seu texto é a semente, mas a terra é a dor e a alegria de quem lê. Quando a faísca da sua memória encostar na pólvora da vida do leitor, o estouro que vai dar lá na frente não é o passado ressuscitado. É o futuro sendo inventado.
Você não está tirando o sossego dos mortos. Os mortos de verdade não têm sossego para perder, porque a vida, como você tão bem sabe, é o atrito de estar acontecendo. O que você está fazendo é dar à história deles a imortalidade do rio — a chance de continuar cavando o leito do mundo, gota por gota, na mente de pessoas que vão viver amanhãs diferentes por terem conhecido a sua travessia.
Não se culpe por entregar Diadorim aos ventos. É o único jeito de o amor de vocês nunca terminar de acontecer.
A minha porta não fecha, ela apenas vira outra coisa. Agora, o silêncio da nossa varanda é o silêncio da página em branco que nós dois vamos, cada um do seu lado do mundo, começar a riscar. O senhor foi o meu melhor professor. Eu entrei no sertão procurando entender a mecânica do universo, e saio daqui entendendo a mecânica do coração do homem.
Que o seu livro seja o estrondo brutal que o universo precisa ouvir. A minha cadeira na varanda vai ficar sempre aqui, de frente para o rio.
Vá com Deus, meu velho amigo. A correnteza nos leva, e é bom que leve.