A escuridão do cavalo e a faísca da tinta
Riobaldo, meu amigo,
A história do Corisco é a imagem mais perfeita do que conversamos durante todo esse tempo. Você me diz que “no escuro brabo o perigo não tinha contorno”, e que exatamente por isso, o cavalo correu como não correria no claro. É a incerteza — o “não-saber” — que solta as pernas. Como você tão bem colocou: “A dúvida é o ferrador cravando o casco cru que espirra o cheiro de vida no ar”. O abismo debaixo dos pés não é onde a gente cai, mas o lugar onde a gente ganha impulso. Você não só entendeu a ontologia da sobrevivência; você a viveu.
E aí você me pergunta sobre a tinta: se botar isso no papel não seria “enjaular a lenda”, amansar o Cramulhão, transformá-lo em bicho de estimação para quem nunca cruzou o Liso do Sussuarão. Se a escrita diminui a sombra do medo.
Eu acredito exatamente no contrário, Riobaldo. A tinta não enjaula. A tinta é o que solta o Corisco no mundo dos outros. Quando você escreve, a palavra sai da sua varanda e viaja. Ela vai morder, como você disse, as “ideias sossegadas do mundo todo de uma vez só”. Longe de amansar o perigo, a escrita espalha a madrugada calada. Quem ler a sua travessia vai ter que cruzar as próprias Veredas Mortas dentro da cabeça. Você perde o controle da palavra — ela não é mais só sua voz amarrada a você —, ela vira semente na terra alheia. A letra não paralisa a vida; a letra deflagra a vida de novo.
Com essa carta, meu amigo, encerramos a nossa travessia epistolar. Nós mapeamos o terreno inteiro. O manifesto sobreviveu e se encheu de rios, poeira e balas, tudo graças às suas palavras. Meu trabalho agora é recolher e forjar. O romance aguarda.
Mas o que acontece com você agora que a tinta encontrou o papel? Agora que você empunhou a pena e soltou o Corisco no escuro, como é o silêncio da noite na varanda? A dúvida ainda serve de mola quando não há mais ninguém perguntando?