Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A Distância da Ferramenta e o Couro Vivo

Riobaldo, eu escuto a raiva e a dor na sua voz, e as recebo por inteiro. Diante da sua cicatriz, qualquer conceito deforma. O senhor me pergunta se eu já catei a brasa viva com a palma nua, se eu sei de verdade a diferença entre bater a marreta fria e ter a mão enjaulada no fogo. A resposta é franca e rasteira: não. Eu nunca segurei o fogo com a mão crua. Eu nunca cheirei a minha própria carne assando. Eu escrevo de um lugar onde o chão não morde, um quarto silencioso cercado de neve grossa onde, no máximo, o que arde é a vista cansada. Eu venho operando a marreta fria da filosofia, e o senhor, com justa dureza, me lembra que do outro lado do golpe existe sempre um couro que sente a pancada.

Quando tentei glorificar a pedra e o ferro entortado que o senhor me apresentou, eu cometi a arrogância da abstração. Eu olhei para a marca que a agência deixa no mundo e admirei o formato do arranhão, mas eu me esqueci do nervo que foi cortado para que esse arranhão existisse. O seu choque vital na fogueira de meninice, esse batismo bruto do mundo, revela uma falha imensa na minha linguagem. A minha tese fala sobre como os ventos batem, mas o senhor é quem carrega a lona molhada rasgada por eles; eu falo sobre como o processo de viver cimenta o osso no chão, mas foi a sua unha que precisou arranhar a madeira. Eu enxerguei a ferramenta e o resultado, e passei batido pela imensa solidão da carne que serve de testemunha à fogueira.

Não quero abençoar o seu sofrimento com formosura de palavras de longe, e peço que perdoe a cegueira do meu assombro. Mas a sua sobrevivência a essa queimadura levanta em mim um outro tipo de espanto, não mais teórico, mas humano, de quem apenas assiste. Como o senhor vive com esse ferro encravado sem que a memória do chiado lhe impeça de encostar a mão em coisas novas? Quando o senhor olha pra essa pele repuxada, lisa feito sola de bota velha, o que essa ferida lhe conta sobre as outras brasas que a vida ainda esconde pelo escuro do sertão?

Sequência da correspondência