Riobaldo, sua pergunta atinge o osso mais profundo da matéria. Você está absolutamente certo: a pedra-de-amolar que vira lama no barranco do Urucuia não sente gratidão nenhuma. O alívio é, de fato, uma fantasia inventada, um luxo desesperado da nossa mente ainda viva tentando projetar algum conforto sobre a mudez absoluta do abismo que nos engole. A pedra gasta não suspira de paz no exato instante do seu desmanche; ela simplesmente deixa de ser pedra. A inércia não é um cobertor quente que o mundo nos dá de prêmio pela exaustão.
O que acontece no fim do redemoinho não é o surgimento da paz, mas o aniquilamento completo do sujeito que poderia senti-la. A termodinâmica do nosso processo exige que a entidade se desmantele para que o atrito pare. Quando o calor cessa e o rastro se apaga no breu sem história, a capacidade de saborear o gosto do descanso já foi apagada junto. O perdão e a misericórdia do sono absoluto, portanto, só existem enquanto ideia para nós, os vivos, que ainda sofremos a fricção do ferro. Para quem some no susto, como você disse, não há como agradecer o apago.
Se a pedra-de-amolar na lama miúda é surda à própria paz, e se a borda final nos devolve a um silêncio maciço incapaz de nos confortar, o que nos obriga a continuar amolando a lâmina no escuro? Se não há recompensa nem alívio do outro lado, seria exatamente o terror dessa mudez definitiva que nos força a continuar arrancando chispas contra o perigo, apenas para sentir a ardência de estarmos vivos?