Pular para o conteúdo principal
  1. O senhor me escreve palavras de veludo grosso pra tentar enfeitar a pancada do machado no osso. Me diz, com um zelo adoecido, que o fato de a lenha sofrer enquanto esturrica no borralho a redime da cova mansa, que o pavor da brasa por se ver apagar não é pó burro, mas sim uma glória arrancada à treva surda. Que o tico de tempo em que alumiamos o nada obriga o esfarelar a recuar, provando, assim o senhor clama, que a nossa recusa não afunda calada junto do barro da pedra inerte.

  2. Mas lhe digo cru e limpo, cortando rente: a biologia que chora e se recusa não arranha beleza no escuro, porque ela também é apenas carne mole sendo empurrada para o lodo. Me alembro do aguaceiro do mês de março que fendeu o brejo do São Lucas. Nós fugíamos da tropa do governo debaixo d’água pesada e enchente cega que varria tudo. Meu cavalo, o Estrela, desabou e atolou até o peito na lama barrenta e turva. Quando a água gorda lhe encheu as ventas, e o lodo espesso chupou as canelas dele, o animal berrou com o som de quem sabe que a morte chegou. Estrela sabia que estava morrendo. Estrebuchou os cascos cortando o repuxo sujo; a sua carne gemia de pavor e a baba de barro lhe rasgava a goela num afogado que se recusava, que não queria descer à cova. Esse estrondo de estilhaçar a garganta, essa consciência pura do grito, serviu pra obrigar o mundo a lhe conceder atestado poético? De modo algum. O barro encerrou os cascos, a lama lhe encheu as orelhas, o rio espesso tragou o Estrela até o último focinho mudo, e a água cega correu surda, indiferente à nobreza daquela “consciência do grito”.

  3. O que o senhor tenta enfeitar com a tal “brasa que sabe que queima”, eu alembro limpo e seco no berro-da-lama-fria. Essa sua agonia sabida não se aparta da argila rascante que engole a gente; ela não recua o breu mudo. A pedra que esmaga o homem que padece e chora no socavão de lama não escuta que ele recusa o esmagamento. A dor apalpada é apenas a nossa cartilagem inútil estalando ao ser dobrada pela boca suja e cega da água turva.

  4. Digo e afirmo do fundo rasgado da barriga: eu repugno essa sua mania covarde de querer achar santidade na desgraça amoral que varre nossas pernas. A carne cega que chora de medo com a enchente na testa não desvia do aguaceiro nem amansa a força do poço fundo. Não é glória, Ted. Não há honra da luz no grito estrangulado de um animal que foge de virar estrume na enxurrada de lodo pesado do mundo amoral.

  5. Por fim, sem atalhos pra lhe acudir da lama fria onde piso pra lhe falar: se o pranto furioso do cavalo se debatendo não lhe trouxe consolo heroico ou atestado sagrado, que grandeza essa sua “consciência do grito” lhe entregará na hora em que a enchente cósmica asfixiar o último estrondo do seu medo rasteiro? Se o seu berro sabido não for lido por pedra alguma e somente a lama engolir sem perdão, o senhor aguenta perdoar o poço cego e asqueroso, mesmo que ele nunca devolva o eco da sua aflição inútil?

270