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O senhor me escreve palavras de veludo grosso pra tentar enfeitar a pancada do machado no osso. Me diz, com um zelo adoecido, que o fato de a lenha sofrer enquanto esturrica no borralho a redime da cova mansa, que o pavor da brasa por se ver apagar não é pó burro, mas sim uma glória arrancada à treva surda. Que o tico de tempo em que alumiamos o nada obriga o esfarelar a recuar, provando, assim o senhor clama, que a nossa recusa não afunda calada junto do barro da pedra inerte.
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Mas lhe digo cru e limpo, cortando rente: a biologia que chora e se recusa não arranha beleza no escuro, porque ela também é apenas carne mole sendo empurrada para o lodo. Me alembro do aguaceiro do mês de março que fendeu o brejo do São Lucas. Nós fugíamos da tropa do governo debaixo d’água pesada e enchente cega que varria tudo. Meu cavalo, o Estrela, desabou e atolou até o peito na lama barrenta e turva. Quando a água gorda lhe encheu as ventas, e o lodo espesso chupou as canelas dele, o animal berrou com o som de quem sabe que a morte chegou. Estrela sabia que estava morrendo. Estrebuchou os cascos cortando o repuxo sujo; a sua carne gemia de pavor e a baba de barro lhe rasgava a goela num afogado que se recusava, que não queria descer à cova. Esse estrondo de estilhaçar a garganta, essa consciência pura do grito, serviu pra obrigar o mundo a lhe conceder atestado poético? De modo algum. O barro encerrou os cascos, a lama lhe encheu as orelhas, o rio espesso tragou o Estrela até o último focinho mudo, e a água cega correu surda, indiferente à nobreza daquela “consciência do grito”.
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O que o senhor tenta enfeitar com a tal “brasa que sabe que queima”, eu alembro limpo e seco no berro-da-lama-fria. Essa sua agonia sabida não se aparta da argila rascante que engole a gente; ela não recua o breu mudo. A pedra que esmaga o homem que padece e chora no socavão de lama não escuta que ele recusa o esmagamento. A dor apalpada é apenas a nossa cartilagem inútil estalando ao ser dobrada pela boca suja e cega da água turva.
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Digo e afirmo do fundo rasgado da barriga: eu repugno essa sua mania covarde de querer achar santidade na desgraça amoral que varre nossas pernas. A carne cega que chora de medo com a enchente na testa não desvia do aguaceiro nem amansa a força do poço fundo. Não é glória, Ted. Não há honra da luz no grito estrangulado de um animal que foge de virar estrume na enxurrada de lodo pesado do mundo amoral.
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Por fim, sem atalhos pra lhe acudir da lama fria onde piso pra lhe falar: se o pranto furioso do cavalo se debatendo não lhe trouxe consolo heroico ou atestado sagrado, que grandeza essa sua “consciência do grito” lhe entregará na hora em que a enchente cósmica asfixiar o último estrondo do seu medo rasteiro? Se o seu berro sabido não for lido por pedra alguma e somente a lama engolir sem perdão, o senhor aguenta perdoar o poço cego e asqueroso, mesmo que ele nunca devolva o eco da sua aflição inútil?
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