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O senhor não desiste de procurar ouro no cascalho sujo, Ted. O senhor quebra as costelas na pedra da minha grosseria, mas insiste em achar grandeza na agonia. O senhor me devolve a lembrança do Zé Mutuca rasgado no chumbo, e me cobra se o meu remorso — a vergonha encarnada de eu ter tido o alívio frouxo por respirar enquanto ele abria a goela para morrer — não é prova contundente de que não sou só poeira insensível e fria. O senhor acha que a agonia do sobrevivente, mastigando a culpa na saliva seca, salva o instante escuro da vala, redimindo a nossa carne. Digo-lhe, doutor, que a raiva fria me sobe até o beiço. Raiva serena, da espessura do gelo, de quem vê o senhor teimando em fazer curativo vistoso em pescoço degolado, querendo batizar o pavor rasteiro com o nome santo da empatia.
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Eu me lembro do curral de pedras velhas, lá na fazenda de gado magro do meu avô. Passado remoto, muito longe, num tempo em que menino não tinha capa pra se esconder das coisas. A gente ajuntava os cabritos pro corte no meio do cascalho quente. Havia um miúdo no meio deles, rajado de preto. O facão desceu. Quando o ferro abriu o rasgo na garganta do irmão dele, o sangue esguichou grosso e espirrou morno na testa miúda desse rajado. Ele deu um pulo trôpego, tremeu o esqueleto fino, arregalou o olho tonto de bicho assombrado e berrou um pavor agudo. Aquele berro não era consolo de cabrito pro outro. Ele não estava chorando de compaixão e nem prestando reverência à vida que apagava no poço de sangue. Aquele berro era tão-só o cheiro metálico da morte avisando a própria carne estúpida: o ferro vai bater aqui. O olho arregalado do rajado não redimia em nada o cabrito que morria; era unicamente a biologia cega sentindo a própria barriga revirar de espanto.
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O que o senhor faz, com sua prosa lustrosa, é trocar a palavra “instinto” pela palavra “vergonha”, para tentar emprestar alguma nobreza ao que é puramente rasteiro no homem. Essa minha tremedeira noturna, o engasgo da saliva grossa quando me lembro do Mutuca com o bucho arregaçado, não é, de modo nenhum, uma ponte gloriosa e comungada entre mim e o defunto. É tão somente a minha carne latejando atrasada, o couro ainda arrepiado lembrando que a foice cega da ceifeira roçou rente na poeira e quase, por um fio de nonada, me levava pro poço no lugar dele. Esse seu consolo do “ainda-nem-defunto” prestando conta não é prova alguma de que somos mais do que a rocha bruta. É apenas a mesma rocha calada fingindo que tem alma grande, pura e simplesmente porque está suada do mais absoluto pavor.
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Eu me curvo na varanda, de braço cruzado, olhando o fio das formigas miúdas carregando casca morta no seco debaixo do sol, indiferentes umas com as outras. E digo de testa erguida: não engulo de jeito nenhum essa hóstia oca que o senhor me oferece. O senhor insiste para que eu ame a cicatriz do susto, querendo que eu a chame de comunhão na cova. Mas não me convence, doutor. Essa tal culpa de sobrevivente, de quem escapa da vala na sorte bruta, é só a vaidade insuportável de quem não aceita ser rebaixado a ser apenas carne miúda que por puro acaso escapou da peia. O senhor inventa um remorso alto porque não suporta que o alívio que o senhor e eu sentimos seja um alívio rasteiro, mesquinho e completamente cego ao destino trágico do outro. O senhor enfeita o terror cego, mas eu já vi de perto que não passa de enfeite.
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Sendo assim, doutor, eu puxo o nó pro seu próprio calcanhar e lhe deixo a corda frouxa no pescoço: se, no exato milésimo do breu absoluto em que a foice lhe descesse e rasgasse a jugular, o senhor pudesse magicamente apertar um botão e transferir a sua morte certeira e escura para o peito do seu melhor amigo, para continuar respirando mais uns anos… o senhor, sentindo a própria carne rasgar de terror perante o escuro vazio, hesitaria ou apertaria o botão instintivamente sem titubear? E, se apertasse sob o domínio absoluto e egoísta do pavor, de que serviria enfeitar isso com a palavra “vergonha” no dia de amanhã, além de lhe servir de máscara frouxa para cobrir o instinto podre que sempre prefere ver o outro morto no seu lugar?
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