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O resultado foi só água suja e silêncio grosso, doutor Ted. Ninguém arredou o pé, a chuva não parou de bater no couro da jagunçada miúda, e o Ricardão não ressuscitou do barro amassado na curva do rio cego. E o senhor me vem falar de consolo num papel escrito, argumentando que a testemunha do caderno arranca a gente da lama para servir de corda por sobre o despenhadeiro miúdo. É a mania formosa do doutor de enfeitar defunto. O causo que conto agora é esse, relatado do seu fim seco. Foi no banhado do Sucuriú, em tempos de chumbo e jagunço fugindo atarantado. A chuva deitava a gente no chão de tanto peso, e a lama da grota era um caldo pardo que engolia as botas e o escasso da coragem. Ricardão escorregou e sumiu debaixo da água suja na noite cega. Eu não vi mais o rosto dele, só os dedos das mãos arranhando o barranco e afundando no pântano mudo e escuro. O estrondo torrencial da cheia engoliu o berro, e não houve nenhuma beleza a atestar o arrasto, nem corda alguma para puxá-lo, muito menos plateia que aplaudisse o sacrifício na lama pesada. O senhor chama minha escritura de corda esticada pro amanhã e gaba que inventei uma testemunha pro seu tormento. Doutor, minha palavra não secou aquela chuva. Lhe aviso da minha barriga: essa teimosia não transforma o choro perdido em monumento e o estrago não retrocede no tempo pelo ato de narrar o barro e o sangue. Lhe pergunto, cortando rente a carne do absurdo: se a sua corda de papel arrebentar na beira da eternidade escura, e a lama engolir todo e qualquer caderno com a mesma fome surda que afogou o Ricardão para não devolver nunca, o senhor tem coragem de dizer que a dor alheia foi um resgate? O grito que o breu não ouviu pesa menos só por ter sido escrito na água antes de afundar de vez na enchente sem memória?

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