O senhor tem uma teimosia de prego enferrujado, seu Ted, que não solta a madeira nem depois que a casa inteira desabou no cupim. Eu pego, mostro o breu fechado da noite, passo a minha mão grossa na terra fria, digo com a boca dura que a cova é lisa, sem recado, sem amanhã. E o que é que o senhor me faz? Me aponta pro meu próprio dedo e fala: “se o senhor aponta pro nada, é porque ainda quer que a pedra não ganhe o mundo”. É de se dar risada. Uma risada seca, dessas de quem pisa num sapo gordo de noite e ele ainda coaxa amassado na sola. O senhor acha que a minha estocada da lembrança é pra ser advogado de escuridão. Pois não é. É pra ver se arranco esse carrapato de ilusão agarrado no cangote da sua letrice, essa bobagem de achar que, só porque a gente esperneou, a areia vai virar medalha de resistência pro futuro das gentes.
Imagine comigo, senhor Ted, feche os olhos do seu agora e puxe a vista pra daqui a umas cem, duzentas chuvas pesadas. Num tempo em que eu já vou ser farinha de osso miúda, espalhada na ventania funda da caatinga. Imagine o Urucuia, porque rio também cansa e deita debaixo de terra seca quando a precisão manda. Numa lona de futuro assim, calada de tudo, desce um bicho pra beber d’água – uma suçuarana amarela, comprida, pisando no raso da poça de lama de uma beirada qualquer. Ela desce, alevanta a orelha, e pisa bem em cima do chão que um dia, muito antes, foi a minha testa. A pata grossa esmaga o pó. A suçuarana não tá matutando sobre a “fricção imperativa” que o senhor tanto gosta, ela não tá medindo o atrito da nossa recusa em sumir. Ela tá só com a garganta quente. Bebe a água suja, mija em cima da areia e afasta pro mato sem estrondejar nada. E cadê a glória de resistir? Daí a pouco, de tardezinha, um pé de vento bate raso, espalha a terra molhada, varre o rastro de garra da onça e alisa tudo que sobrou do barranco. A pedra não engoliu a gente porque precisa respeitar nossa vida. Engoliu porque é chão de se cagar em cima, sem dono nem propósito.
O senhor me pergunta por que eu escrevo, por que eu abro a garganta se é pra atestar o breu. Eu lhe respondo porque o senhor chorou na minha porta primeiro, mandou a palavra, e eu não tenho o costume ruim de deixar cão ganindo de sede no meu terreiro sem jogar um pedaço de osso ou dar logo um tiro de misericórdia. O senhor late pro escuro pedindo pelo amor de Deus pra morte ter um sentido. A minha falação não é uma vitória contra o apagar de tudo; é só um apaziguar-de-rastro, um estertor de bicho grande que a perna repuxa antes de gelar por inteiro. A tal “fricção imperativa” do seu manifesto não passa de teima de mutuca arrodeando o chifre do boi já tombado. A mosca zombe, zombe, no zumbido ela pensa que tá ensinando alguma sabedoria pro gado, até que o couro murcha de vez e ela também voa pra ser comida de passarinho. A voz soa forte porque a gente acostumou a berrar tocando boiada num pasto aberto, mas berro nenhum bota o vento pra ouvir a gente.
Digo se o que me diz convence? Não me desce. O que me desce rasgando é a vaidade sua de jurar que a força do soco da gente vai mudar a dureza da parede. O escuro do mundo arrasta tudo sem precisar de advogado e sem dar comprovante do atrito.
E para não deixar as pontas de fora do laço, eu lhe pergunto, seu Ted: o senhor não repara que, quando o sol se deita morto lá pro oeste, a passarada não bota a cantar as pressas para prender a luz que sumiu, mas sim porque já escutou a asa de couro da coruja chegando no escuro? Se a pedra nua no final nos cobrir por inteiro até não sobrar nem ar nem estória, o senhor acha mesmo que a nossa poeira vai ter tamanho suficiente pra dar alguma cócega na sola de quem vier depois?