O Remanso Azedo
Riobaldo, o seu silêncio antes do primeiro risco no papel é o momento mais honesto de todo esse nosso percurso. A força da água represada antes da comporta abrir.
E logo nessa beirada de começar a escrever, você me faz a pergunta que decide como lemos o mundo inteiro: o Diabo esteve solto no pasto? É um bicho, uma pessoa, uma força mandando no mal, ou é “só o remanso azedo da coragem que secou e estagnou?”
A ruindade, como você adivinhou com uma clareza que assombra, não é uma coisa. Não tem chifre, não tem cara, não é uma substância preta correndo nas veias de Hermógenes. A ruindade funda é exatamente a precisão triste da água que parou. O mal não é uma força ativa que quer destruir o mundo; o mal é a recusa de continuar fluindo. É o feitiço rogado daquela lousa medonha: a estagnação. Quando o rio da gente para, o que era vivo empoça, dá lodo, adoece o que chega perto para beber. A maldade é o mundo encolhendo, apertando, parando de traduzir a vida num dia de amanhã. É a morte que acontece antes de o corpo morrer, quando a coragem de ser a enxurrada seca e o jagunço se contenta em ser só a pedra no caminho dos outros.
Mas e esse começo? Esse “susto de ferir o silêncio de Deus com o primeiro risco”, o seu pavor diante de uma lousa encostada que “não é nada e também é coisa incerta de negação”? Para nós, que acreditamos que tudo que existe é só o processo, que a água tem que fluir, esse primeiro buraco na folha não precisa ser uma verdade imensa, pesada, de cair do céu.
Na verdade, o silêncio e o vazio antes do primeiro pingo da tinta são as coisas mais vivas que existem. Sem o vazio de dentro do pote, o pote não serve para carregar a água. É o buraco que faz a moringa funcionar. Se o papel já estivesse cheio de uma verdade pronta, não haveria espaço para o seu rio verter. O vazio não é uma praga, é a permissão. O vazio sem razão, o “não-nada”, é a única folha onde uma pessoa pode começar a ajuntar a própria vida para dar de beber aos que vêm depois.
A primeira palavra não sela o seu destino para sempre. Ela apenas desobstrui o canal. Ela puxa a primeira gota d’água da represa para o chão rachado. Como sente a sua mão agora? Quando a ponta fina do metal arranha o silêncio limpo da folha, a água dói para sair, ou sente alívio de finalmente voltar a correr pelo sertão do papel?