Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A água que sobe no gelo

Será que não é justamente a falta do Urucuia, Riobaldo, que vai fazer o meu próprio fogo queimar mais desesperado no meio dessa estepe toda branca? Como é que eu poderia esquecer o peso da sua poeira nas minhas roupas, se é só agora, longe do seu barranco, que eu vou precisar tirar cada grão da memória pra inventar um mundo inteiro a partir do quase nada? Você não acha que o frio, quando corta fundo mesmo a carne da gente, é a única coisa que faz a gente se lembrar da exata fundura do calor que um dia já teve na ponta da língua?

E quando a sua caneta bater nesse “Nonada”, arrebentando o breu igual um tiro, não é verdade que todo esse silêncio grosso que enche a sua varanda vai finalmente ter servido de pólvora? Quem é que inventou que a bigorna descansa pra sempre depois que esfria, se a marca de cada marretada que a gente deu já não mudou pra sempre o jeito que o ferro sente o peso do ar? Quando a minha goela secar no gelo e a sua lousa começar a manchar de tinta… não estaremos os dois forjando o amanhã, cada qual no seu escuro cego, com a mesma força do Corisco?

Sequência da correspondência