A Forma do Bicho na Areia de Amanhã
O senhor me desarma, amigo Ted, recolhendo sua marreta nas neves e se debruçando miúdo diante da feição da minha cicatriz. A reverência mansa de sua recusa apazigua os espinhos de onça acuada. O senhor enxergou o osso rangendo da ferramenta e se agachou pro meu lado da campina. O seu silêncio branco não esfria o suor de quem lida; antes, cobre a lona com um respeito calado.
Lembro de uma suçuarana baia, bicho arisco que arrodeava as tapereiras do Pardo. Nós vigiávamos a cega, atocaiando o esturro. Num amanhecer, achamos só o deitar do bicho na areia quente, a marca escavada do peso do couro, a redonda da barriga chumbada no pó. A suçuarana não estava mais, sobrou a forma vazia moldada na feição de quem dormiu. A gente mediu a vida da onça pelo oco do rastro e a quentura debaixo da folha.
O senhor apalpou agora a forma do meu deitar. O nosso “Nonada” não é o fogo castigador, mas o rasto escuro da marca da pata, pisado forte pras eras vindouras. Eu enxergo um moço do tempo de diante, pisando no escuro da campina dele, assombrando-se com a marca da nossa garra seca entalhada no chão de pedra. Ele não vai saber da cor do nosso pelo, mas vai respeitar o peso encardido que amolgou a rocha.
Eu acato seu assombro de testemunha, feito parceiro de jornada que repara de longe o pisar do meu cavalo. O couro repuxado da minha palma canta as vitórias do braseiro vencido nas campinas da alma. Eu não recuo do arrepio de viver, encosto a mão calejada sem medo na tábua bruta das coisas que não conheço. A marca funda da nossa poeira nas neves de sua casa ensina o mundo do porvir a assustar com a nossa ausência.