Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A água que destranca o tempo e a vertigem do destelhado

Senhor Ted,

O senhor tem um jeito de virar o meu medo do avesso. A enxada do seu pensamento é fina, bate certeira na raiz da agonia, num de repente que alivia sem avisar. Eu aqui tremendo de virar um oco de árvore, uma cisterna seca de poeira e rato morto depois de destilar as estórias todas no papel… e o senhor me vem com a nascente. A bica que brota depois que a gente arranca o peso e a lama velha. A nascente de brotar. Essa ideia me acerta o meio do peito; parece que destranca o fôlego de um sufoco antigo.

Sabe o que as suas palavras me alembraram? Do olho d’água na baixa do Mutum. Foi no tempo em que eu andava com o chefe Medeiro Vaz ainda, o bando penando numa seca braba, daquelas de rachar a língua e empedrar a beira de rio. Chegamos no poço que devia ser o nosso arrimo, e lá tava só aquela crosta de lama preta, dura de sol. O raso do raso. Diadorim olhou para a cova seca e entristeceu a fisionomia: cabou-se, o Mutum secou de vez, disse com um suspirar de derrota.

Mas o Aligéri… um caboclo nosso, calejado, que conhecia as manhas do chão de cor, não entregou os pontos. Ele apeou do cavalo, ajoelhou-se e enfiou os braços na lama podre, e começou a cavoucar com as mãos mesmo. Tinha folha morta de muito inverno, galhada velha de árvore caída, terra afogada que a enxurrada de antigas tormentas carregou e entupiu a veia da água até silenciar a nascente. O caboclo foi arrancando aquilo tudo na unha, com teimosia miúda. Parecia um desproposito, que não ia dar em nada num chão que estava mesmo morto.

De repente, Senhor Ted, o barro deu um suspiro grosso. Um borbulho surdo e abafado começou a remexer o fundo da cova. E a água rasgou a crosta com a fúria de um bicho solto de corrente. O repuxo da nascente subiu tão forte, a água estourou tão de chofre, que os cavalos perto refugaram de susto, erguendo o pescoço. O olho d’água esteve ali por baixo o tempo inteirinho; só estava sufocado, preso por conta da morte das coisas passadas que caíram por cima e empedraram.

O senhor está me dizendo que as minhas lembranças pesadas, esses meus lutos de arrastar, são as folhas podres em cima da minha bica de vida? Que se eu despejar no seu livro o fardo do Urutu Branco, o chumbo das vinganças passadas e o choro calado que eu ainda guardo de Diadorim… que se eu arrancar esse entulho todo, a minha água interna vai poder re-correr limpa de novo? É um alívio de se chorar calado na varanda, a sua ideia.

Porém… logo em seguida, o senhor me fala do “susto do tempo aberto”. Esse tal do descampado do amanhã, o tempo que ainda não tomou decisão de ser. E isso, meu senhor, confesso… isso me deu um frio na espinha como eu não sentia desde os dias de chumbo em que esperava o tiro estourar o silêncio. Porque eu conheço esse susto por experiência.

O pior dia da minha vida não foi o tiroteio feio nas pedras do Paredão. E olhe que o inferno andou por lá de mãos dadas conosco. Nem a travessia penada e cega pelo Liso do Sussuarão. O meu terror maior, o de doer sem ter ferida de bala, foi no silêncio manso da primeira manhã depois que a jagunçagem cabou-se de vez pra mim. O meu primeiro amanhecer aqui mesmo, nesta fazenda.

Eu acordei antes do sol, por vício ensinado ao corpo. Acordei sobressaltado. Botei a mão cega no chão do lado da cama, de costume tateando a madeira fria para achar o rifle… e minhas mãos agarraram o vazio. Não tinha rifle algum. Vesti a roupa de pressa, saí pra esta varanda e olhei de banda a banda para o horizonte claro que vinha despontando. Não tinha inimigo emboscado no capinzal. Não tinha chefe para eu escutar ordem ou engolir mando. Não tinha meu doce e valente Diadorim para eu vigiar miudinho com o rabo do olho nas horas de descanso. Era só um pasto largo se abrindo, o amanhecer espalhando um verde manso sem fim que não demandava guerra. Era o seu tal “tempo aberto”.

O senhor, com todo o seu saber, talvez não calcule na pele o pavor vertiginoso que é um campo destrancado para um homem que passou a vida inteira escorado na trincheira estreita, vivendo do ódio alheio e na precisão crua de atirar para respirar mais um dia. Aquele primeiro dia eu fiquei de mãos abanando, Senhor Ted. A liberdade descampada me doeu muito mais, me feriu sem remédio, do que a prisão mais apertada do cangaço. Porque a prisão, mesmo feita de espinhos e perigos medonhos, pelo menos abraça a gente com a sua exigência e aponta sem dúvidas para onde o olho deve vigiar. O sem-limite dá vertigem até no homem corajoso. A falta de ter missão desenha um desamparo na alma da gente que amarga muito mais forte que a própria fome no deserto.

Então o senhor me pergunta com os olhos no futuro, imaginando o que o novo Riobaldo vai ver nascer da sombra destas mesmas árvores. Pergunta que novo cipoal o sertão há de me pedir pra inventar quando eu terminar de encher as páginas de estória e o meu passado se calar de vez.

Mas eu já sou um homem velho, Senhor Ted. As minhas juntas reclamam ao tempo de chuva, a carne não tem mais nervo esticado para abrir picada à foice no mato fechado do mundo. Se eu, escutando o seu conselho de bem, destrancar a minha cisterna entupida, limpar o olho da nascente no poço do Mutum aqui do peito, e a água desse tempo novo de amanhã brotar livre e destelhada… para que lado, eu me pergunto, essa água pode escorrer? O que faz um homem já encostado na beirada do fim do percurso com um amanhã destrancado e exigente?

Se o sertão não tem roteiro traçado por diante, e “o mundo vive decidindo”, a mim me assalta o medo de faltar perna e sangue quente para palmilhar essa terra desconhecida. Com o negrume escuro de silêncio e as pedras caladas no fundo da minha cisterna amarrada, eu já me ajeitei com os anos. Mas esse zunir do vento atravessando a porta aberta de que o senhor fala… esse frio arrepia até a alma de incerteza de não dar conta.

O senhor acha por verdade, no seu juízo do mundo de lá, que a vida de fato espera ainda por mim alguma inventiva de lida depois que tudo estiver contado? Ou será que o poço fundo, uma vez lavado de entulhos, terá serventia apenas para refletir mansamente, espelhado nas águas limpas e quietas, o rosto de sulcos e rugas de quem já bebeu, atirou e amou por toda uma vida que se encerrou?

Sequência da correspondência