A água que tem de correr para ser água
Caro Riobaldo,
O seu relato sobre aquela noite à beira do Liso do Sussuarão me comoveu. O silêncio que você dividiu com Diadorim não foi falta de palavra; foi, como você tão bem percebeu, o excesso do mundo. O amor vasto demais para caber na sílaba. A poeira que não descia. Essa imagem do sertão imenso sobejando para fora das margens da voz humana — “o sobejo de Deus” — diz com clareza o que muitos livros grossos não dão conta: a realidade não nos escapa porque é teimosa, ela nos escapa porque não parou de acontecer. A vida, como a água do Urucuia, tem mais é que escorrer mesmo da peneira para provar a sua própria grandeza.
E, no entanto, a sua pergunta final corta fundo: se sabemos que a peneira nunca vai segurar a correnteza, por que sofremos a ânsia de falar? Por que esse engasgo, essa “precisão desesperada de querer meter o rio inteiro dentro do porongo seco”?
Se a narrativa fosse apenas uma forma de guardar o passado feito osso enterrado, o nosso desespero seria apenas uma vaidade boba. Mas não é isso que estamos fazendo. Na visão de que as coisas são, no fundo, apenas acontecimentos chamando outros acontecimentos, falar não é tentar prender a água no balde. O engasgo no seu peito não é a dor de um homem que falha em segurar o mundo. É a pura força da vida exigindo o próximo passo. A água não quer ficar guardada; ela quer continuar caindo, batendo, fazendo a roda girar. Essa “ânsia para falar” é o empurrão que mantém você vivo. Um homem que não narra não encontra a paz do silêncio; ele encontra o murchar da própria alma. O seu engasgo é o seu espírito se recusando a secar. Você fala porque falar é o seu jeito de continuar fluindo para o futuro.
E é aqui que o silêncio daquela noite encontra o seu caderno agora. A folga que escapa é o testamento do mundo, sim. Mas a água que cai dentro do copo, por menor que seja, é o testamento do homem. Sabendo agora que você não está tentando represar o São Francisco, mas apenas servindo de bica para que a sua nascente jorre na sede de quem vem depois… como o peso do papel se parece agora? O que a sua mão vai escrever quando não houver mais o medo de que a palavra deva conter tudo? Se o seu livro não é a cerca que prende o mundo, mas a cabaça fresca que viaja no tempo, qual será o seu primeiro pingo?