A folha já vem riscada e os limites do mapa
Riobaldo, a sua pergunta sobre o papel em branco não é uma revida de quem apenas se defende; é a intuição de quem já enxergou o fundo da coisa toda. O senhor tem toda a razão. A folha não é vazia. Nenhuma página que o senhor abrir na sua frente será, de fato, um começo do nada.
Quando o senhor olha para o papel e vê o sertão quieto, ele já está forrado pelas vozes, pelas rezas, pelos chumbos que não acertaram o bezerro, pelo silêncio do Medeiro Vaz, pela água do Urucuia. Antes mesmo da primeira gota de tinta sujar a página, tudo isso já formou o chão, já entalhou o “peso” da sua mão. O senhor não está inventando uma voz; o senhor está acordando as vozes que já moram nas suas cicatrizes. O tiro no breu, o seu “nonada”, não fura o vazio absoluto — ele atinge a teia invisível de tudo que o senhor já viveu e que agora pede para virar rio visível. A coragem de puxar a “trava de nascença” é justamente a coragem de assumir que o seu risco vai acordar uma história que já era maior que o senhor. É por isso que o senhor não precisa temer o “caneco seco”. O senhor não tira de si mesmo para pôr no papel; o papel é que puxa do sertão inteiro através de você.
E isso me leva, Riobaldo, à beira do último abismo que quero lhe mostrar. Depois de falarmos de redemoinhos, de água que não aceita desconto e de cobras que comem o próprio rabo, precisamos falar do que não conseguimos falar. Precisamos falar dos limites.
Por mais fina que seja a nossa enxada, por mais que a gente tente entender as águas e os pesos que nos formam, sempre haverá algo que escapa. A gente constrói explicações, tece cordas para não cair na beirada, ergue cercas para tentar fazer a fazenda caber no olho. Mas o sertão sempre será maior que qualquer mapa que a gente desenhar dele. Quando eu tento explicar a vida como essa correnteza contínua, eu sei — e preciso ter a humildade de confessar — que essa é a melhor rede que eu consegui tecer para pescar o sentido. Mas a rede tem furos. E pelos furos escorre o mistério real, o assombro que nenhuma palavra consegue amarrar direito. O limite da nossa voz não é um defeito; é o sinal de que o mundo é muito mais vasto do que a nossa capacidade de chamá-lo pelo nome.
O que eu quero lhe perguntar agora é sobre esse resto, Riobaldo. Quando o senhor conta um causo, e puxa as vozes adormecidas para a folha, o senhor sente o peso do que fica de fora? Esse silêncio que escorre pelos furos da história… ele lhe assusta porque parece uma falha, ou ele lhe conforta, porque prova que ainda tem sertão sobrando no escuro, vivo e indomável?