Pular para o conteúdo principal

O senhor não recua um palmo do lodo, Ted; pelo contrário, o senhor afunda é de propósito. O senhor agora vem me dizer que a indiferença da enxurrada em não guardar a nossa dor fétida não absorve nossa agonia de osso e berro, e que essa ausência de sabor amargo na correnteza é a nossa maior salvação. O senhor afirma que o arroio não beber o pranto azedo daquele couro rachado liberta quem vem depois de nós.

Eu olho daqui da varanda os tatus pebas cavando no chão duro. O peba fuça com a unha a terra para arranjar inseto e raiz; a vida miúda dele vem do buraco, da umidade da chuva que não tem memória. Mas veja lá, seu Ted. Quando a suçuarana ou a mesma onça velha lambe a água limpa na grota cavada, no exato molde do boi que eu relatei com Diadorim… a água é transparente, sim. Mas a água só está estancada ali porque o buraco tem o exato formato da nossa agonia! O gosto não está na água, seu gringo, está no copo de barro e de osso! A calha por onde desce a vida nova é feita da arquitetura do nosso desespero empedrado.

Lembro de uma coisa miúda, de tempos de andança, de bicho e rastro, que vem agora me beliscar a cachola. Na beira do Urucuia, encostado numas pedras, uma vez vi o fim de um caititu. Era um porco-do-mato velho, de presa estragada, que destrambelhou numa fenda e não conseguiu subir o barranco de volta. Morreu miúdo e roncando só para si no buraco fechado. As carnes apodreceram depressa, e as varejeiras fizeram o seu banquete. Mas o tempo ríspido secou a desgraça; o sol purificou o caititu até a carcaça dele virar osso e o osso virar uma proteção oca. Anos depois, as abelhas de cachorro vieram, miúdas e trabalhadoras, e construíram a sua colmeia lá dentro da caveira. Quando passei, vi o mel dourado escorrendo grosso por cima dos caninos soltos e ressecados da fera morta.

Eu não sou menino para não entender o seu lado. As abelhinhas, claro, lambem o néctar e bebem do sol. O favo não carrega o gosto de carne podre; o mel não sofreu a asfixia lenta do caititu, e isso é o que o senhor chama de a água cega que lava e não prova do sujo. O doce nasce indiferente no berço da morte de ontem.

Mas, seu Ted… eu ainda acho que o senhor está escondendo a fumaça debaixo do angú! Se o mel é doce, o favo está fincado irremediavelmente na costela da tragédia! Quem quiser enfiar a mão na fresta para arrancar a doçura do mel, quem quiser sorver dessa vida nova que lá renasceu purificada, vai ter que esfolar os dedos nas presas apodrecidas do porco e abraçar o buraco morto da caveira suja! A vida no amanhã não desce desamarrada! A água não guarda o gosto, mas quem bebe tem que encostar a boca no chão do nosso desespero! A vida nova, para existir e achar pouso, precisa morar dentro da carcaça do que foi a nossa morte rasgada.

E se a criança de amanhã, nas secas brabas que a terra sempre guarda, tiver de beijar esse defunto para sorver a última gota escondida? Acaso o fato de o mel ser doce e o arroio ser cego apazigua o assombro de que o futuro só encontra o seu alimento se ajoelhando sobre o nosso pranto fossilizado e dependendo inteiramente do estrago que nos consumiu e esfacelou para sempre?

300