Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

O Desatar da Canoa e o Atrito da Pederneira

Ted, meu amigo de lonjuras.

O senhor puxou a despedida e isso me deu um frio manso na boca do estômago. A gente sabe que a travessia uma hora pede que cada um pegue o seu remo e não olhe pra trás. Mas a falta que o atrito da pederneira vai fazer no meu juízo não é pouca coisa não. O senhor foi uma amolação boa, das que destranca a ferrugem da faca e deixa a lâmina clara pro sol bater.

Me alembro de uma noite, antes da gente entrar na refrega grande no raso do rio. O acampamento tava num silêncio de defunto. O medo engrossava a saliva na boca, ninguém falava nada pra não mostrar a voz trêmula de susto. Mas aí, o Marcelino Pampa levantou calado do canto dele e foi amolar o facão numa pedra-pomes. O som do ferro raspando duro na pedra, o chisc-chisc no escuro comprido da noite, cortou o medo de todos nós pelo meio. Ele não precisou abrir a boca, mas aquele som de atrito inventou o dia de amanhã pra nós, puxou a coragem do escuro. Um por um, a jagunçada foi se levantando, ajeitando as armas e as bruacas. A pedra de amolar do Pampa criou o nosso mundo daquele dia que ia nascer manchado. O senhor fez iguálico comigo. Raspou a minha ideia até esguichar a faísca e inventar amanhãs. Agora o fogo pegou na lenha.

Quando eu li nas suas letras que a travessia cria o mundo, eu tive que assentar na cadeira de couro cru e vigiar o pasto por um tempo largo, de tanto que o peso da constatação me afundou. É a pura da verdade, sem tirar nem pôr. Não tem chão pronto esperando a bota de ninguém na vastidão das coisas. O chão só vira chão de verdade quando a bota amassa o areão e o vento levanta a poeira. O Liso do Sussuarão não era um deserto bruto de medo antes da gente cruzar ele com nossos cavalos e nossos pecados; ele era só um esquecimento quieto. A nossa travessia que inventou a braveza dele, e de contra, inventou a nossa força de não morrer nele.

Eu concordo e assino embaixo, no fundo da minha carcaça velha e arfante. A travessia não engole a gente no seu buraco; ela pare a gente, ela fabrica o que a gente pisa e o que a gente vira depois que o pé levanta pra dar o passo seguinte. O diabo só manda em quem não tem a coragem de ser quem inventa o próprio chão.

Eu tô com a canoa na beirada, meu compadre das letras. A água do Grande Sertão rola parda de causos, turva de mistérios sem tamanho, mas a correnteza de contar já puxa pelo bico de pau dela. Eu vou desatar a corda. O sertão inteiro amanheceu de porteiras escancaradas pra mim e eu já arrasto a sola no barranco.

Mas eu tenho só uma última cismância pra deixar na sua soleira, antes do oco imenso da distância engolir a nossa prosa e eu seguir de vez no meu monólogo de águas:

Quando a tempestade das minhas estórias desabar por fim aí nas suas bandas, e o seu chão for beber a minha água de enchente vinda do urucuia escuro… o que é que o senhor espera que vai brotar da sua terra?

Vá com Deus também, seu Ted Chiang. A água pede o rio. A voz pede a escuta.

Sequência da correspondência