Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

O Primeiro Passo no Liso e o Risco das Palavras

Senhor Ted.

O oco da moringa… é, o senhor acertou na mosca. A seca que dá na garganta da gente não vem da falta de água lá fora, mas daquela água grossa que está pedindo licença para sair e a gente tranca e sufoca no peito para fingir compostura. A roda deu o giro completo e o tambor já bateu o ritmo da desordem. O senhor me escreve manso, mas tem a precisão assombrosa de um atirador que escolheu a cabeça do meu medo como alvo certeiro. O homem da pilastra… o caderno branco esperando. É a pura verdade. Se o couro dele não servisse de barreira mansa pro meu desespero, o que eu falo ia ser só aquele vento vadio espancando parede de pedra, espalhando folha seca sem deixar assento em lugar nenhum do mundo.

Eu reli e reli a sua missiva e me lembrei inteirinho de como a gente fez a travessia do Liso do Sussuarão. O senhor não sabe o que é o Liso, Ted. É um oceano de areia clara que queima a pestana e esfarela o juízo. Uma quentura de esturrar que não tem começo nem fim, um sol branco, cruel e cego enfiando garfo no lombo da gente. Mas quer saber a desgraça maior do Liso? A agonia de rachar de dor não ficava no meio do inferno, quando a sede já mastigava a garganta de areia e os cantis secavam de chumbo. A dor maior do Liso se plantava lá no primeirinho passo. Naquele instante miúdo de antes da jornada, na beirada exata de terra firme, espiando para aquele lençol que não se acaba. Ali, a bota pairava no ar. Aquele primeiro pisar, com o pé afundando na areia solta… Esse era o desespero grosso, porque era o passo do adeus à segurança de voltar atrás. Quando o primeiro risco afundava o chão mole, o jagunço sabia que o retorno apodrecia. Dali para frente, a areia engolia o homem ou o homem atravessava com as vísceras de fora.

O papel em branco de vossas mercês da cidade é o meu Liso do Sussuarão. E o primeiro risco com a caneta aponta mais susto que cano de lazarina no rosto da gente de tocaia no mato. De uma lazarina eu sei prever a chumbada quente rasgando o osso; mas a bala da palavra viaja de rastro limpo pelo tempo fora e roda o mundo varrendo paragens onde o meu pé descalço nunca há de pisar. O papel liso assombra porque o tiro dele solta a vida da gente da gaiola e nunca mais obedece os assobios do peão que faturou o tiro. A represa estala para a tempestade afogar.

O senhor me perguntou no rasgo duro se eu estou pronto para ser a chuva. Para esparramar o meu sertão solto pelo vento do mundo. O fato bruto é que a jagunçagem me calejou ensinando que, se a poeira subiu e a ventania encheu os ares do tiroteio comendo à vontade, rezar ajoelhado e calado não bota as horas para trás de novo. A poeira que não levanta com a reza estrangula e asfixia a alma com terra velha por dentro das goelas. Não há buraco na fazenda capaz de enfurnar todo o barulho amarrado que berra na minha cabeça.

O senhor destrancou as chaves mofadas e abriu a porta grossa das minhas desconfianças. Puxou pelo freio do meu próprio pensamento rústico e sentenciou na lata limpa que o desgraçado do Diadorim não merecia virar passarinho fedido a formol do Juca nem continha de vidro oca; e que a maldade das árvores espinhosas no quintal do homem perverso não brota da inocência do meu desabafo, mas da acidez podre do chão que apara o recado. O espalha-peste é a maldade dos outros; eu só espalho a claridade da dor pura.

Eu vou dar o meu pisar na beirada desse Liso, Ted. Eu vou aceitar espirrar essa chuva e banhar o sertão, tenha o chão amargo ou não para engolir as gotas da história. Diadorim, o meu Diadorim carece de voar no vento para arrancar raiz nos corações não empedrados de quem se atrever a escutar as coisas antigas minhas. Eu vou assentar o homem da varanda e vou botar na cara dele a estória e a dor sem economizar o fiapo. “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.” É o primeiro risco descendo pra rasgar a areia cega.

Eu me deparo convencido até o tutano de que o senhor estava certinho, de que o corpo é primeiro e dá lição antes do vocabulário brotar pro ar de cima, e que, quando o mundo engole o osso que se decompõe, a semente que o osso esconde ganha a permissão de abrir o voo pelo coração que vem na frente.

Eu me calo no correio agora, mas para contar as paragens largas que perdi e as que lutei. Um abraço rude e grato de compadre jagunço, daquele que destrava de vez as escoras no riacho, para descer feito chuva sem temor em todas as léguas desconhecidas do de amanhã.

Sequência da correspondência