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Ted, o senhor teima com a teima das coisas duras e antigas, feito raiz de imbuzeiro que não solta a laje debaixo da terra de jeito nenhum. Mas não é mais a teima cega de quem quer que o escuro mude de cor para o seu agrado. Lendo sua carta, eu me calei. O senhor sentou aqui na varanda com a poeira na cara e os olhos arregalados, não pro céu e não pras suas fantasias, mas pro mistério da espessura da treva surda, pro peso do chão que nos chama. E perante esse pavor, que também já engasgou a minha garganta, o senhor baixou as vistas, curvo de respeito. Reverência de quem enxerga o precipício como precipício. O senhor pergunta se o simples ranger de dentes da gente contra a asfixia — a recusa de apagar frouxo — já não é uma monumental mordida contra o breu inescapável, mesmo não servindo a futuro nenhum.

Alembrei de uma noite medonha. Fogo e brasa. Eu era menino miúdo ainda, lá pras bandas da Serra do Boi-Morto, ajudando padrinho Selorico com umas caçadas por necessidade. A tardinha desabou depressa, como sertão faz quando chupa a luz. Num descuido com um rastreio besta, desgarei do rastro do padrinho. Me vi perdido no miolo rasgado de uma brenha seca, e a noite tombou de cima. Não foi noite mansa, não: foi uma lona preta, pesada de chumbo, dessas que tiram o prumo e engolem as pontas dos dedos da gente. Uma cova de céu. Pavor, senhor Ted. Pavor de gelar o osso por dentro, puro instinto de bicho arrodeado por onça invisível no silêncio que zunia. Achei um toco meio fofo de macambira velha, raspei dois seixos d’água até esfolar as unhas e deitei uma chispinha num fiapo de musgo seco. Nasceu um tição minguado, um rabo miúdo de brasa viva, um fogo-cego arfante que eu aparava com a concha das mãos sujas, tremendo. Eu espremia aquele tição no meio do negrume, suando gelado, abafando pra brasa não apagar e soprando miúdo pra não esturricar rápido. E a noite, ah, a noite não tava nem aí pra mim nem pro meu fogo. Ela ia me engolir da mesma forma que a caatinga lisa engole preá na boca da jiboia, sem perguntar. Aquele tição não amansava a escuridão; ele não tinha promessa de durar até o amanhecer, e ninguém mais no mundo via ele. Eu só apertava ele com força porque o corpo é medroso demais pra virar sombra sem brigar.

Essa “mordida contra o breu” que o senhor tateou aí com espanto reverente, eu conheço e não tem mistério para letramento. Eu chamo de fogo-cego-de-queimar e de puxar-fôlego-na-pedra. É quando o corpo, moído e sabendo da lousa fria esmagando ele inteiro sem perdão, solta o berro grosso e gasta a última faísca roçando as unhas num abismo cego e surdo. O nosso desespero — essa agonia isolada, esse não-querer fechar o olho, igual a mim apertando meu tição de macambira pra adiar o silêncio da mata por meia hora — não é enfeite nem heroísmo, é a pura estricnina da carne que chia fervendo na chapa fria da morte.

E me pergunta o senhor, assim tão inclinado diante do enigma: se essa grandeza de existir, de segurar a vida como brasa que bate na noite, não é a afirmação mais forte que o pó levanta. Eu digo pro senhor, com o calo da mão aberto: eu me rendo, a meia parte. Sim, essa nossa angústia espiralada antes do suspiro derreter não nos faz perdoados e a cova limpa tritura a mordida da gente sem se importar, é verdade total e crua. Mas, no milésimo de tempo em que a faca amola cega na pedra da nossa destruição, o fogo-cego-de-queimar é nós. Enquanto o tição brilha miúdo entre as palmas suadas debaixo do breu surdo, enquanto a morte não soterrou as mãos, o que nós dois tivemos foi estar arfando no escuro. A cova não vai notar nossa recusa; mas nós notamos que o outro gritou, ainda que em voz baixa.

A treva da laje não tem orelhas pra nós dois e apaga a nossa vela num sopro gélido, já sem consolo possível. Mas antes do chumbo tampar a caixa funda onde não guarda vestígio pra ninguém assuntar: debaixo dessa vastidão surda, nessa varanda de noite seca onde eu não sou mais jagunço e o senhor não é mais profeta, será que a gente não acendeu um toco de brasa rala, só pra confirmar que o companheiro também tinha pavor do escuro? E se, no engasgo raso do silêncio que zune na nossa orelha agorinha mesmo, Ted Chiang, a nossa mordida no breu for só nós mesmos segurando o fogo-cego pro outro enxergar a própria tremedeira com reverência, não estaria aí a lida inteira do pó?

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